Urucuna une fortalecimento comunitário e geração de renda a famílias tradicionais e indígenas
Para muitas garotas, o aniversário de 15 anos é o momento de realizar um sonho. A empresária
Júlia Ferreira Tatto decidiu comemorar essa data acompanhando o pai em viagem a uma aldeia
indígena no Xingu, na região nordeste de Mato Grosso – o mesmo local onde a irmã, Lígia Ferreira Tatto, celebrou seus 18 anos. A ligação com os povos tradicionais se confunde com a história devida da família de Nilto Ignácio Tatto, 60 anos, socioambientalista, e de Lucia Maria Ferreira Tatto, 63 anos, assistente social e contadora especializada no terceiro setor. Os pais de Júlia e Lígia sempre desenvolveram trabalhos ligados às comunidades indígenas e à preservação ambiental.
A partir dessa influência familiar, tornou-se natural que as irmãs também escolhessem, ao longo dos
anos, dedicar-se aos povos originários. Elas estão 100% envolvidas com a causa – tanto emocional quanto
profissionalmente. Hoje, são sócias-proprietárias da Urucuna, um negócio de impacto que produz velas aromáticas e oferece oficinas e consultorias de fortalecimento de capacidades a artesãs indígenas e de comunidades tradicionais, para que façam do artesanato e da floresta uma fonte de renda mais próspera.
O que elas chamam de “um negócio de inovação da sociobioeconomia” traduz-se na transformação
de insumos naturais em perfumados objetos de desejo, valorizando saberes tradicionais e gerando renda
sustentável. “A Urucuna surgiu com a ideia de valorizar e comercializar o artesanato produzido pelos povos indígenas”, revelou Lígia, engenheira ambiental graduada pela Universidade Estadual de Campinas (Uni-camp), com MBA em Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Já Júlia é formada em Comunicação Social e Ciências Contábeis, com especialização em Advocacy e MBA em Sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). O nome Urucuna não está nos dicionários – foi criado por Lígia e Júlia. É a junção de urucum (fruto usado pelos povos da floresta, símbolo da cor vermelha e de proteção) com una (unir ou preto, em tupi). “Vermelho e preto são as cores da identidade visual da nossa empresa. Pensamos nelas para representar o propósito de unir a floresta e as pessoas”, explicou Lígia.
Segundo ela, a iniciativa direcionada aos povos indígenas é a concretização de um sonho: conectar a Amazônia por meio dos cheiros da floresta, dando protagonismo às comunidades tradicionais. Com uma metodologia própria de inovação na sociobioeconomia, a Urucuna fortalece cadeias produtivas e agrega valor aos produtos florestais, integrando saberes do artesanato e dos óleos vegetais e promovendo trocas de conhecimento.
Startup nasceu durante a pandemia
A Urucuna nasceu em março de 2020, em plena pandemia da Covid-19, mas sua semente começou a germinar alguns meses antes. No final de 2019, Júlia voltou à Amazônia em busca de descanso e reconexão após uma crise de burnout. A viagem, feita ao lado dos pais, a levou a São Gabriel da Cachoeira (AM), município com uma das maiores populações indígenas do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Durante a estadia, Júlia ouviu repetidamente um mesmo relato: a dificuldade dos povos locais em vender seus artesanatos por preços justos. “Peças que demandavam horas de trabalho e carregavam profundos saberes culturais eram oferecidas por valores irrisórios”, afirmou ela. “Eles vendiam por muito pouco peças que sabíamos o quanto custavam em tempo e esforço. Foi essa percepção – e o desejo de valorizar não apenas os produtos, mas também a cultura e as pessoas por trás deles – que nos motivou a agir”, acrescentou Lígia.
Sem recursos financeiros e a milhares de quilômetros da floresta, durante uma crise de saúde, social e financeira mundial, usaram a internet como principal ponte entre seus planos e as comunidades. Conversaram com organizações do terceiro setor, entraram na Rede Origens Brasil, criaram conexões com aldeias e começaram a estruturar a rede que daria origem à Urucuna. pital nem investidores externos. Nossos pais ajudavam a nos manter financeiramente, mas não podiam investir na Urucuna”, lembrou Lígia.
Foi nesse período que descobriram, em São Paulo, uma fábrica no ramo de cosméticos naturais. Assim, a produção das velas passou a ser terceirizada e com aprovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – as irmãs enviam a receita e toda matéria-prima (ouriços, tucumãs, óleos, manteigas) e a fábrica produz. Dali, os produtos vão para um estoque terceirizado que faz o envio aos clientes.
Expansão e impacto
O crescimento da Urucuna nos últimos anos reflete a força de um modelo de negócio que alia impacto socioambiental, inovação e valorização dos saberes tradicionais. Em seu primeiro ano de operação, em 2020, o faturamento foi de apenas R$ 18 mil. Quatro anos depois, o valor chegou a R$ 330 mil, totalizando mais de R$ 700 mil desde a fundação.
Com o aumento da demanda e a consolidação de sua presença no mercado, a empresa passou a diversificar fornecedores e estruturar novas cadeias produtivas, expandindo sua atuação de aldeia em aldeia, descobrindo novos aromas, trocando saberes e construindo relações de confiança com diferentes povos da floresta.
Da combinação dos bioativos amazônicos com embalagens artesanais produzidas por mulheres indígenas e comunidades tradicionais, a Urucuna já distribuiu mais de R$ 120 mil a seis comunidades parceiras nos estados do Pará, Rondônia e Amazonas, envolvendo diretamente mais de 200 artesãos e extrativistas – a maioria mulheres. Esse trabalho contribui para a preservação de cerca de 900 mil hectares de floresta em pé, fortalece a economia local e valoriza modos de vida tradicionais.
Desde sua criação, a empresa tem como pilares a atuação em rede e a transparência. Todas as relações comerciais são intermediadas por organizações comunitárias e seguem princípios de comércio ético, incluindo a distribuição de royalties pelo uso de conhecimentos tradicionais e a precificação participativa.
Em rodas de conversa e oficinas, as irmãs Tatto compartilham a estrutura de custos da empresa com as comunidades e constroem coletivamente os preços dos produtos, reconhecendo o tempo e o esforço dedicados a cada etapa – do lixamento dos ouriços de castanha à limpeza dos caroços de tucumã. Esses espaços de diálogo se tornaram importantes momentos de formação, cocriação e fortalecimento de capacidades
locais, promovendo autonomia e ampliando o impacto da sociobioeconomia
Nova fase
Ao longo dos anos, a Urucuna expandiu não apenas seu impacto, mas também seu modelo de atuação. A empresa intensificou sua presença em áreas protegidas da Amazônia brasileira, com destaque para a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, a Terra Indígena Roosevelt e a Terra Indígena Sete de Setembro. Já operando em cinco estados da Amazônia Legal, em 2024 a Urucuna consolidou relações comerciais com mais de 200 artesãs e 102 produtores locais, adquirindo artesanato e insumos como o óleo essencial de breu diretamente das comunidades.
Essa atuação ocorre em uma área superior a 900 mil hectares, conservada por populações tradicionais e povos indígenas. O trabalho é viabilizado por meio de parcerias com organizações comunitárias e entidades de apoio, que asseguram que cada etapa da cadeia – da compra à comercialização – seja conduzida de forma justa, transparente e sustentável.
A transparência continua sendo um valor inegociável. Desde 2023, a Urucuna passou a formalizar suas relações comerciais por meio de Termos de Cooperação, garantindo a compra de produtos da sociobiodiversidade e oferecendo previsibilidade de renda às comunidades. Esse processo colaborativo reforça o compromisso da empresa com o comércio ético e a valorização do trabalho coletivo.
Consolidação e serviços
Após anos dedicadas à estruturação de cadeias produtivas, à pesquisa e à inovação com ativos da sociobiodiversidade e à capacitação de produtores e artesãos, as irmãs perceberam que a Urucuna poderia ir além da venda de produtos. Surgiu, então, uma nova frente de atuação, voltada à oferta de serviços socioambientais e consultorias estratégicas.
Hoje, essa área representa a maior parte do faturamento da empresa, oferecendo soluções como mapeamento do potencial sociobioeconômico em territórios indígenas e tradicionais, fortalecimento de capacidades locais e estruturação de cadeias produtivas e apoio a empresas interessadas em inovar na bioeconomia e desenvolver novos modelos de negócio sustentáveis.
Mesmo com essa diversificação, os produtos continuam sendo o coração da marca. “Eles são a vitrine viva da sociobioeconomia, uma prova concreta de que é possível gerar renda e promover fortalecimento comunitário mantendo a floresta viva”, afirmam as irmãs..
Reconhecimento e futuro
O trabalho pioneiro da Urucuna já foi amplamente reconhecido. Em 2024, a empresa conquistou o primeiro lugar no Prêmio Brasil Criativo na categoria Design e o segundo na Aceleradora 100+ da Ambev, consolidando-se como referência em inovação com base na sociobiodiversidade. Ao longo da trajetória, prestou serviços e consultorias, firmando parcerias estratégicas com organizações como The Nature Conservancy, Forest Trends, Instituto IPÊ e Arapyaú.
Em 2025, a Urucuna dá mais um passo em sua trajetória com o lançamento da Casa Niaré, sua primeira loja física autoral, em Belém (PA). Criada em parceria com Tucum Brasil, Mazô Maná e Da Tribu, a Casa Niaré também abriga a Jornada Niaré – programa de fortalecimento de empreendedores da floresta, realizado com o apoio da Amazon Investor Coalition, Fundo Vale e AMAZ.
A Urucuna integra também a Associação dos Negócios da Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio), que reúne mais de 130 negócios comprometidos com a construção de uma nova economia florestal.
Com raízes firmes e olhar voltado para o futuro, a Urucuna continua ampliando seu impacto, fortalecendo parcerias e criando pontes entre saberes tradicionais e inovação. Seu trabalho demonstra que é possível transformar a bioeconomia em prosperidade, respeitando ciclos, territórios e culturas – e mantendo a floresta viva.
Conheça os fotógrafos da floresta
Todas as fotos do projeto Urucuna foram feitas por fotógrafos indígenas ou moradores da
região amazônica que fazem parte do projeto. São eles: Fabrício Suruí; Thony Cinta Larga; Ubiratan Suruí; Paulo Desana Dabakuri; Rodrigo Duarte e Lunara Cardoso.

