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Artistas superam dificuldades por meio da arte e mostram a riqueza cultural da Amazônia, além da natureza

10 ago 2026

Ver um quadro meu em um livro é um sonho desde pequeno, pois foi assim que me interessei pela arte: quando vi um quadro de Portinari em um livro da escola. E agora a senhora me entrevistando… meu Deus! Será que isso está acontecendo comigo mesmo? gente, que já apanhou tanto nessa vida, moça, se surpreende com essas coisas. Já estou ansioso por este livro, assim como sonho em expor fora do Brasil”, disse, emocionado, o pedreiro e artista Cássio José da Silva, o Cássio Flores, 56 anos, da Manaus Galeria, ao contar sua história para esta publicação.

Assim como Cássio, Kuenan Mayu e Monik Ventilari são revelações da Manaus Galeria, que já projetou nomes como Duhigó e Dhiani Pa’saro, entre outros artistas da Amazônia que vêm conquistando espaço fora da região, de seus estados e até do país. Eles representam a superação do preconceito regional, racial, sexual e de tantas outras dificuldades relatadas nesta edição. E manifestam – em tom de desabafo – um olhar que este livro pretende revelar: o de que, na Amazônia, além da riqueza natural de um dos maiores biomas do planeta e o maior do Brasil, as pessoas têm valor, história e talento, e merecem mais reconhecimento não só no País, mas também no mundo.

De pedreiro a artista surrealista e ativista ambiental

A história de Cássio Flores tem início em Canutama, cidade com nome indígena que significa depor- tado. Com o mesmo sobrenome da mãe, Cássio é mestiço de família indígena Apurinã, da região do rio Purus, no Amazonas, e de cearenses. Começou a trabalhar como letrista, fazendo faixas e murais comerciais, mas tinha o sonho de ver uma tela sua impressa em um livro.

“Desde os 12 anos trabalhava como pedreiro, e ao mesmo tempo atuava como letrista. Quando estudava, vi o quadro de Portinari ‘O Retirante’, que retrata um povo que deixa sua cidade em busca de uma vida melhor na cidade grande. Aquilo mexeu comigo, e pensei: como pode um quadro fazer a gente refletir sobre a vida? Por isso, queria um dia deixar um quadro meu em um livro didático também, assim como eu vi o de Portinari na época da escola em Canutama e me motivou para a arte”.

Do interior, Cássio se mudou para Manaus em 1991 e, trabalhando simultaneamente como pedreiro e letrista, nunca desistiu de divulgar seus quadros em exposições. “Não consegui terminar meus estudos trabalhando como pedreiro; completei apenas o Ensino Fundamental. Chegando a Manaus, comecei a pintar telas inspirado no pintor Salvador Dalí, que também não tinha recursos tecnológicos como eu. Aos poucos, passei a compreender sua linha de pensamento e a refletir sobre ela em minhas telas. Foi então que passei a pintar sobre questões ambientais baseadas no surrealismo”, revelou.

Depois de iniciar as pinturas, o pedreiro perdeu a esposa, que estava doente, e parou de pintar por um tempo. Foi durante essa pausa que surgiu uma oportunidade. “Quando ela faleceu, eu tinha cerca de 15 telas guardadas. Fiquei decepcionado com tudo, pensei em desistir; estava há mais de 30 anos tentando emplacar uma exposição e não conseguia. Foi então que, enquanto fazia um serviço como pedreiro na reforma de uma igreja, encontrei um salão vazio. O rapaz para quem eu trabalhava pediu minhas telas emprestadas para colocar no espaço. Durante o período em que meus quadros ficaram lá, ele organizou uma reunião com o secretário de Cultura de Manaus, porque queria alugar o salão para aulas de música. Quando o secretário viu meus quadros, perguntou de quem eram e pediu para me conhecer – o pedreiro autor das telas”, lembrou.

No mesmo dia, Cássio contou que o secretário o convidou para participar de uma exposição sobre meio ambiente, ocasião em que conheceu Carlysson Sena, da Manaus Galeria. “No início, meus trabalhos não foram bem aceitos pelo público. Todos são voltados para o meio ambiente, mas com um estilo mais complexo, o surrealismo. Não é aquele tipo de pintura com paisagens bonitas, e sim com desenhos que carregam um significado, uma mensagem filosófica para expressar situações da atualidade”, explicou Cássio, que acabou se tornando um ativista ambiental.

“Meu maior sonho é expor em outros estados, além do Amazonas. Tenho me dedicado a novos quadros, com temas fortes, mostrando o que está acontecendo com a crise climática, que já saiu do controle. Passo esse cenário para as minhas telas. Quero que as pessoas entendam, por meio do meu trabalho, a importância da natureza, da Amazônia e do planeta como um todo”, concluiu o artista.

Kuenan: artista indígena, trans e internacional

“ O artevismo” da artista indígena transexual Kuenan Tikuna – como ela mesma define sua profissão – mostra como a força e o talento dos povos indígenas podem superar qualquer obstáculo e se tornar exemplo na defesa da diversidade entre as etnias e, inclusive, dos direitos relacionados à orientação sexual na sociedade. Como um divisor de águas em sua trajetória, Kuenan Mayu deixou, aos 9 anos, a comunidade de Feijoal, em Benjamin Constant, no Alto Rio Solimões – região do Amazonas situada na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia –, para acompanhar a mãe, também indígena, que, em 2012, foi aprovada no vestibular de medicina em uma universidade de Brasília.

A partir daquele ano, Kuenan, a mãe e a irmã mais velha viveram uma mudança drástica de cultura e de costumes. Entre a vontade de estudar e evoluir e a necessidade de se proteger, desenvolveram um novo comportamento, uma espécie de autodefesa para “sobreviver” em meio ao preconceito regional e sexual que passaram a enfrentar na capital federal.

“Foi um choque de realidade muito grande para nós, tanto cultural quanto social. Aqui em Brasília, tudo era muito diferente da minha comunidade. Foi onde tive acesso a uma educação de melhor qualidade, pois lá o ensino era mais fraco, além de termos conhecido outras culturas. No entanto, o mais difícil foi enfrentar o preconceito e até mesmo o medo da violência ao sair de casa. Tanto eu quanto minha mãe e minha irmã passamos por situações de xenofobia e racismo por causa das nossas origens. Inclusive, minha mãe, até hoje, tem processos em andamento por denúncias de racismo.”

Aos 21 anos, Kuenan, oriunda de duas etnias do Amazonas – os povos Tariana e Tikuna –, continua morando em Brasília. Mesmo diante das dificuldades no início de sua vivência na capital federal, ela não desistiu dos estudos e, após concluir o Ensino Médio, optou por cursar a faculdade de Ciências Sociais.

Em paralelo, Kuenan sempre pesquisou as questões de identidade de seu povo, sua singularidade e suas manifestações culturais. Passou também a contar sua história e ancestralidade por meio da arte, transformando-a em uma aliada no enfrentamento da discriminação.

“Mesmo nesse período difícil, eu furei a bolha com a arte. Ela foi uma das minhas saídas, porque eu ainda precisava superar a discriminação em relação ao meu corpo, além da etnia. Outro fator é que cresci entre mulheres que são grandes artistas do meu povo. Para nós, indígenas, o conceito de arte é muito amplo, envolve também questões espirituais”, acrescentou.

Kuenan transmite sua arte por meio da fotografia e da pintura na casca do tururi – uma entrecasca da árvore –, além de confeccionar desenhos. Seus trabalhos abordam temas como gênero e sexualidade, fazendo uma ligação entre a cultura de seu povo e a contemporaneidade, bem como explorando outras questões, como a religiosidade.

“Comecei trabalhando com moda e cheguei a desfilar para algumas marcas indígenas. Antes mesmo de entrar na faculdade, já participava de algumas exposições com o tururi, a entrecasca também utilizada para confeccionar roupas. Na nossa cultura, porém, antes de usá-la, ela é abençoada. Na minha arte, a utilizo como se fosse uma tela, materializando minhas expressões por meio de desenhos”, explicou Kuenan, detalhando seu trabalho. “No tururi, retrato passagens da cosmovisão do meu povo, com olhares sobre o início do mundo Tikuna. Por exemplo, a história de que eles nascem de seres encantados através dos joelhos. Faço, dessa forma, uma ponte entre ancestralidade e contemporaneidade, abordando também questões de gênero, sexualidade e lutas ambientais, como a demarcação indígena e a religião dos nossos povos.”

A estudante de Ciências Sociais conta que começou a fazer exposições aos 18 anos, com pequenas mostras em galerias indígenas de Manaus (AM). Aos poucos, seus trabalhos passaram a ser apresentados em espaços mais conhecidos, como o Teatro Amazonas, quando seu talento começou a ser reconhecido, inclusive fora do estado.

“Minha primeira exposição mais importante foi aos 19 anos, com fotografias em São Paulo. Participei da maior feira de arte da América Latina, a SP-Arte, em uma edição dedicada à arte LGBTQIA+, que apresentou obras sobre diversidade e respeito. O espaço recebeu o nome de ‘Telas do Orgulho’ e, a partir daí, participei de outros grandes eventos, como uma mostra na Pinacoteca do Ceará, uma exposição no Chile e em diversos outros lugares”, lembrou Kuenan.

Ela contou que conheceu Carlysson Sena, diretor da Manaus Galeria, em um desses eventos, quando, por acaso, ficou ao lado de Duhigó, a primeira indígena da etnia Tukano a se profissionalizar nas artes visuais. Com 16 anos de carreira artística, Duhigó já conquistou admiradores e colecionadores no Brasil e no exterior.

“Diante de tudo o que vivenciei, essas questões de preconceito me fortaleceram para mostrar mais sobre meu povo. Não só como Kuenan, mas também para evidenciar nossas manifestações culturais. As pessoas costumam romantizar a Amazônia e ocultar seus problemas. Como diz a ministra dos Povos Indígenas,
Sônia Guajajara, ‘o futuro é ancestral’. Se a gente não olhar para nossa ancestralidade, não haverá futuro”, argumentou a artista.
“Meu objetivo é impactar as pessoas de alguma forma por meio da arte: levar reflexões, quebrar estereótipos, principalmente sobre nós, povos indígenas, que temos tantas línguas e somos tão diversos. As pessoas precisam refletir mais sobre suas vidas, de onde vieram e por que estão aqui, e entender que a natureza também é responsável por tudo: pela comida, enfim, por tudo o que precisamos. Nesse mundo tão capitalista, meu desejo é que a sociedade passe a olhar para nós, indígenas, como seres humanos e reconheça que todos precisam agradecer muito aos nossos povos. Merecemos uma reparação significativa por tudo que já enfrentamos, desde o início até os dias de hoje”, concluiu Kuenan Tikuna.

O resgate da memória através das telas

Monik Nicolini Menezes Ventilari, ou Monik Ventilari, 40 anos, também foi uma das artistas reveladas pela Manaus Galeria. Nascida e criada na capital do Amazonas, sempre esteve envolvida com a arte, mas entrou para a galeria em 2021, quando conheceu Carlysson Sena em um centro espírita que frequentavam. Na época, em meio à pandemia de Covid-19, a arte se tornou uma importante saída, inclusive como fonte de renda.

“Durante a pandemia, fiquei sem recursos e comecei a divulgar meus quadros. Foi então que Carlysson me ajudou a me inscrever em um edital Feliciano Lana, do Governo do Amazonas, e com ele consegui recursos para produzir uma exposição, que foi divulgada por meio de uma live devido às restrições da época. A mostra se chamou ‘Paisagens Abstratas do Porto Ventilari’. Quando concluí a coleção, Carlysson me convidou para integrar a galeria”, contou Monik.

Formada em Ciências Sociais, a artista já é conhecida na capital amazonense há 16 anos, graças à participação em eventos em parceria com o Conselho Municipal de Cultura, como três amostras indígenas que coordenou e o Circuito de Arte de Manaus. Foi nesse circuito que começou a trabalhar com cultura, na época na secretaria estadual responsável pela área.

“Minha primeira exposição foi em 2006, quando eu era aluna de artes no Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro. Antes disso, eu só desenhava em casa e não tinha nenhum direcionamento artístico. Hoje, pinto quadros, e minhas coleções mais significativas estabelecem um diálogo com a arquitetura, resgatando memórias de obras da cidade. Por exemplo: existia um estádio no Amazonas projetado pelo arquiteto Severiano Mario Porto, que foi demolido para a construção da Arena da Amazônia. Antes de sua demolição, fotografei todo o estádio e depois produzi obras inspiradas nessas imagens e nas lembranças do monumento”, detalhou.

Sobre a importância da valorização do seu trabalho e de outros artistas da Amazônia, Monik destacou o talento dessas pessoas, mas também o potencial das características autênticas da região. “A Amazônia é praticamente outro país. Aqui no Norte, temos nossa própria cultura, nosso modo de falar, de comer e de pensar. Somos diferentes das outras regiões, sim. Quando expresso minha arte sobre uma casa no centro de Manaus, sobre as cores da floresta ou do pôr-do-sol daqui, estou mostrando minha visão, da minha Manaus, da minha floresta”, destacou a artista.

“Cada um tem sua forma de se expressar, mas nós, artistas, temos uma cosmovisão própria sobre o ambiente em que vivemos, e nosso ponto de vista é de quem mora na região. Queremos mostrar às pessoas como é viver na Amazônia, e que aqui vai muito além das questões de sustentabilidade. Por isso, a valorização dos artistas da região favorece uma pluralidade de visões que representa nossa cultura como um todo”, concluiu Monik.

Das telas para a fotografia: o talento e o ativismo de Cláudia Andujar

Assim como os artistas da Manaus Galeria, que estão saindo do anonimato para conquistar espaço dentro e fora do país com suas telas expressivas, uma fotógrafa e artista plástica renomada também se tornou um ícone ao refletir seu ativismo indígena nas imagens. Trata-se da líder da Comissão Pró-Yanomami (CCPY) no Brasil, a também ativista suíça naturalizada brasileira Claudia Andujar, nascida Claudine Haas, em 1931, em Neuchâtel, na Suíça.

Claudia escapou do Holocausto em 1944, quando fugiu com a mãe para a Suíça. No fim de 1946, cruzou o Atlântico rumo aos Estados Unidos para reunir-se ao tio, o único sobrevivente da família paterna, de origem judaica. Em Nova York, estudou no Hunter College, trabalhou como guia e tradutora na Organização das Nações Unidas (ONU) e iniciou sua produção artística com pinturas.

Em 1955, ela se mudou para São Paulo para reencontrar a mãe, que havia imigrado para o Brasil logo após o fim da guerra. Sem falar português, Claudia fez da fotografia seu instrumento de trabalho, de aproximação com o país e de comunicação com seus habitantes. Nas décadas seguintes, colaborou com importantes revistas nacionais e internacionais, como Life, Aperture, Look, Realidade, Quatro Rodas e Setenta.

Em 1971, Claudia teve seu primeiro contato com o povo Yanomami. Anos depois, em 1978, fundou a CCPY ao lado do missionário italiano Carlo Zacquini e dos antropólogos Alcida Ramos, Beto Ricardo e Bruce Al bert. Sob sua coordenação, a CCPY organizou uma ampla campanha pela demarcação do território Yanomami, com o objetivo de assegurar a preservação ambiental e a sobrevivência desse povo originário da Amazônia. O esforço culminou em 1992, quando o governo brasileiro reconheceu oficialmente a Terra Indígena Yanomami.

Com uma trajetória marcada por inúmeras exposições e premiações em reconhecimento ao seu ativismo em defesa dos povos indígenas por meio da fotografia, entre seus trabalhos mais recentes destaca-se a mostra panorâmica “A Luta Yanomami”, realizada no Museu Universitário de Arte Contemporânea (MUAC), na Cidade do México, em maio de 2023, com apoio da Fondation Cartier. A exposição percorreu importantes instituições internacionais, como a Fondation Cartier pour l’Art Contemporain (França), a Triennale di Milano (Itália), a Fundación MAPFRE (Espanha), o Fotomuseum Winterthur (Suíça), o Barbican Centre (Inglaterra) e The Shed, Nova York (Estados Unidos).

Seu trabalho integra o acervo de importantes instituições ao redor do mundo e, no Brasil, ocupa uma galeria permanente no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Nesse espaço, estão expostas mais de 300 fotografias que retratam sua trajetória em defesa do povo Yanomami.

Quando a fotografia mostra a força da mulher

Seguindo o exemplo de Claudia Andujar, 11 fotógrafas paraenses utilizam a imagem como instrumento de valorização dos povos originários da Amazônia e de afirmação da representatividade feminina do Pará. Elas integram a exposição “Vetores Vertentes: Fotógrafas do Pará”, um panorama da fotografia contemporânea produzida por mulheres amazônidas, que vem percorrendo o país em mostras nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

A mostra apresenta um recorte inédito que traça um panorama de mais de 40 anos da produção fotográfica feminina na Amazônia, reunindo diferentes gerações de artistas que transitam da experimentação visual à documentação social. Entre as precursoras das décadas de 1980 e 1990 estão Bárbara Freire, Cláudia Leão, Leila Jinkings, Paula Sampaio e Walda Marques. Já a nova geração é representada por Evna Moura, Deia Lima, Jacy Santos, Nailana Thiely, Renata Aguiar e Nay Jinknss.

A exposição teve início em São Paulo, no dia 8 de março de 2025 – Dia Internacional da Mulher –, seguindo em exibição em Brasília até novembro do mesmo ano. A iniciativa é do Projeto Museu das Mulheres, com curadoria de Sissa Aneleh, e reúne cerca de 160 obras – entre fotografias, jornais artísticos, propostas fotográficas, áudios e vídeos –, distribuídas pelos espaços do CCBB. A exposição, que destaca a importância da representatividade e da autonomia das mulheres na tradução da riqueza cultural e social da Amazônia, nasce de um extenso trabalho de pesquisa desenvolvido há mais de uma década. A mostra propõe reflexões sobre identidade, território e memória a partir das perspectivas e temáticas das 11 fotógrafas participantes.

“Era essencial garantir uma representatividade diversa, tanto geracional quanto estética. A fotografia produzida por mulheres no Pará desafia as fronteiras entre arte, documentação e experimentação – é uma poderosa ferramenta de resistência e afirmação identitária”, explica a Sissa Aneleh.

Das imagens à literatura e ao cinema: Manaus pelos olhos e pelo coração de Milton Hatoum

Se a fotografia já expressa as peculiaridades da população e da região amazônica, imagine o que revelam
os livros e as telas do cinema. É comemorando o lançamento do filme “Retrato de um Certo Oriente”,
baseado em sua obra, lançado em 2024, que o escritor e arquiteto manauara, de origem libanesa, Milton Hatoum,
celebra, mais uma vez, até onde pôde chegar o menino que estudou em uma escola pública de Manaus.
Dono de quatro prêmios Jabuti (1990, 2001, 2006 e 2009), o primeiro deles pelo romance que inspirou
o longa, Milton Hatoum teve “Relato de um Certo Oriente” adaptado para o cinema por Marcelo Gomes.
O filme foi lançado em novembro de 2024 no Brasil e em outros países e, no mesmo mês, consagrado
como melhor filme no Festival de Huelva, na Espanha.
Publicado em 1989 e vencedor do Jabuti de Melhor Romance, o primeiro livro de Hatoum narra a
trajetória de uma família de imigrantes libaneses em Manaus, abordando desde a fuga da guerra no Líbano,
em 1949, até os desafios das diferenças culturais e o ciúme de um dos irmãos que o romance aprofunda.
Filmado em preto e branco, “Retrato de um certo Oriente” segue a linha de seus outros livros, como “Dois
Irmãos”, adaptado para a televisão. Suas narrativas misturam ficção e memórias do autor, abordando a presença
de imigrantes no coração da floresta amazônica, tendo Manaus como cenário, além das lembranças da infância
e juventude de Hatoum, inclusive nos anos conturbados da ditadura, período em que viveu em Brasília.

O arquiteto de histórias

Nascido em 19 de agosto de 1952, em Manaus, Milton Hatoum – que até hoje escreve seus livros à mão, digitando os rascunhos posteriormente para editoração – estudou no Colégio Amazonense Dom Pedro II e viveu na capital do Amazonas até 1967. Nesse mesmo ano, aos 15 anos, mudou-se para Brasília, onde, ainda estudante do ensino médio, participou de uma passeata contra a ditadura. Acabou preso, mas foi liberado em seguida. Sua obra “A noite da espera”, publicada em 2017, se passa justamente nesse período. O romance mistura histórias sobre a juventude em tempos de opressão e traz memórias de Hatoum relacionadas ao regime militar.

Retomando sua trajetória, em 1970 mudou-se para São Paulo, onde cursou Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP). Dez anos mais tarde, seguiu para a França, onde estudou literatura na Sorbonne, profissão à qual se dedicou desde então. Em 1984, retornou ao Brasil e passou a lecionar na Universidade Federal do Amazonas. Cinco anos depois, publicou seu primeiro romance – “Relato de um certo Oriente” – obra que, décadas mais tarde, ganharia as telas do cinema. Hatoum atuou também como professor visitante na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, em 1996. Dois anos depois, deixou de lecionar e voltou a morar em São Paulo, onde reside até hoje. Atualmente, além de se dedicar à literatura, o manauara é colunista do jornal O Estado de S. Paulo.

Hatoum publicou outras obras de grande sucesso, como os romances “Dois irmãos” (2000), “Cinzas do Norte” (2005), “Órfãos do Eldorado” (2008), “A noite da espera” (2017) e “Pontos de fuga” (2019), além do livro de contos “A cidade ilhada” (2009) e do volume de crônicas “Um solitário à espreita” (2013). Em seu extenso currículo, com mais de 250 mil exemplares vendidos, o escritor acumula, além de quatro prêmios Jabuti, distinções como o Prêmio APCA (2006), o Portugal Telecom de Literatura (2006), o Livro do Ano (2006) e o Prêmio Bravo!

Um árabe nortista que anseia pela paz em Gaza

Ativista em suas redes sociais e em entrevistas na imprensa, Hatoum atua em defesa de sua origem familiar libanesa, posicionando-se contra a guerra entre Israel e Hamas, na Faixa de Gaza – iniciada em 2023 e em processo de cessar-fogo até o fechamento deste livro —, assim como na proteção da floresta amazônica e na preservação de Manaus, cidade que acolheu sua família.

Exemplo dessa admiração pela capital amazonense e pela Amazônia como um todo é a declaração de Hatoum em uma de suas inúmeras entrevistas, desta vez ao jornalista Pedro Bial. Mesmo morando em São Paulo há mais de 20 anos e tendo vivido em outros países, o escritor afirmou que “Manaus ainda o perseguia por onde ia, não somente nos pensamentos”.

“(…) Manaus aparece nos meus sonhos também; estou sempre viajando para lá. Nasci e cresci na cidade. Para um escritor, a infância e a juventude são fundamentais (…). É que a infância é o nosso Paraíso Perdido”, afirmou Hatoum a Bial.

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