Secas na Amazônia deixam de ser exceção e desafiam infraestrutura logística do País

As secas extremas na Amazônia deixaram de ser eventos ocasionais para se tornarem uma realidade cada vez mais frequente. O alerta foi feito por especialistas durante o webinar “Diálogos Amazônicos – Seca nos rios Amazônicos: Clima e Economia”, promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que reuniu na última segunda-feira, 27 representantes da academia, do governo federal e do setor produtivo para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre a logística, a economia e o desenvolvimento da região.

Segundo os participantes, a intensificação dos eventos climáticos extremos exige uma mudança na forma como o Brasil planeja sua infraestrutura logística, especialmente na Amazônia, onde milhões de pessoas e centenas de indústrias dependem diretamente da navegação fluvial.

Dados apresentados durante o encontro mostram que, somente nos últimos 25 anos, a região registrou cinco grandes secas e quatro grandes cheias, fenômenos que passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade. Em 2024, o Rio Negro atingiu o menor nível já registrado em mais de um século de medições, evidenciando a crescente vulnerabilidade da maior bacia hidrográfica do planeta.

Para o presidente-executivo do CIEAM (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, a discussão reforça que os impactos das mudanças climáticas extrapolam a questão ambiental e já representam um desafio estratégico para a economia brasileira.

“Quando a logística da Amazônia é comprometida, os impactos ultrapassam as fronteiras da região. O Polo Industrial de Manaus integra cadeias produtivas nacionais e depende dos rios para receber insumos e distribuir produtos para todo o País. Adaptar a infraestrutura logística à nova realidade climática deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade estratégica para garantir competitividade, abastecimento e desenvolvimento econômico”, destaca.

Durante o webinar, o professor Francis Wagner, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explicou que a alternância entre secas e cheias extremas passou a ocorrer em intervalos muito menores do que no passado, indicando uma nova dinâmica climática para a região amazônica. O pesquisador destacou que a seca histórica registrada em 2024 e a previsão de fortalecimento do fenômeno El Niño reforçam a importância do monitoramento permanente dos rios e do desenvolvimento de modelos capazes de antecipar cenários críticos.

Outro ponto destacado foi o avanço da inteligência climática aplicada à logística. Modelos desenvolvidos pela UEA já permitem projetar, com meses de antecedência, o comportamento dos principais rios amazônicos, estimando níveis de navegabilidade, profundidade dos canais e restrições ao tráfego de embarcações. As informações vêm sendo utilizadas por empresas e órgãos públicos para apoiar decisões operacionais e reduzir riscos durante os períodos de estiagem.

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, Otton Luís Bulhões da Silveira Filho, ressaltou que o Brasil precisa superar o histórico de baixa utilização de seu potencial hidroviário e ampliar o planejamento preventivo diante da maior frequência dos eventos climáticos extremos. Segundo ele, o fortalecimento das hidrovias e a integração entre governo, universidades e iniciativa privada são fundamentais para aumentar a resiliência logística do País.

Na avaliação do CIEAM, o debate evidencia que investir em infraestrutura, monitoramento climático e planejamento logístico tornou-se uma agenda prioritária para preservar a competitividade da indústria instalada na Amazônia e garantir o funcionamento de cadeias produtivas estratégicas para a economia nacional.

Sobre o Diálogos Amazônicos

A série “Diálogos Amazônicos” tem o patrocínio do CIEAM (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Bic da Amazônia; Coimpa; Honda; Copag; Mondial; UCB da Amazônia; Visteon; Sinaees; Águas de Manaus; Super Terminais; Midea Carrier; Abraciclo; Simmmem; Impressora Amazonense; Fieam; Caloi; Tutiplast Indústria; Recorfama Indústria; GBR Componentes; Embalagem Placibras; Atem; Vinci; Bemol e Fundação Rede Amazônica.

Sobre o CIEAM

O Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) é uma entidade empresarial com personalidade jurídica, ligada ao setor industrial, que tem por objetivo atuar de maneira técnica e política em defesa de seus associados e dos princípios da economia baseada na Zona Franca de Manaus (ZFM). Implementada pelo governo federal em 1967, com o objetivo de viabilizar uma base econômica no Amazonas e promover melhor integração produtiva e social entre todas as regiões do Brasil, a Zona Franca de Manaus é um modelo de desenvolvimento regional bem-sucedido que devolve aos cofres públicos mais da metade da riqueza que produz. Atualmente, são 600 empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM). O estado do Amazonas tem 578.208 mil empregos, dos quais 134 mil são diretos do PIM e garantem a preservação de 97% da cobertura florestal do Amazonas. Encerrou 2025 com um faturamento de R$ 228 bilhões.

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