Reza a lenda que uma antiga tribo da Floresta Amazônica, localizada onde hoje está a cidade de Belém do Pará, começou a sacrificar bebês para conter o crescimento da sua população, pois não havia comida para tanta gente. A medida drástica teria sido determinada pelo cacique Itaki. Nem mesmo a família do cacique escapou da ordem cruel. Um dia, a sua filha Iaçã deu à luz uma criança que teve de ser sacrificada por causa do próprio avô. A índia ficou inconsolável. Após dias chorando, sem dormir, comer e sair da oca, ela elevou os seus pensamentos a Tupã, divindade indígena, implorando por uma solução que fizesse com que nunca mais uma criança precisasse ter a vida tirada. Segundo a lenda, Tupã sensibilizou-se com a dor da índia. Um certo dia, Iaçã ouviu um choro de criança e saiu da oca. Para a sua surpresa, viu sua filhinha ao lado de uma palmeira.
No entanto, ela logo desapareceu. E Iaçã ficou despedaçada novamente. Chorou até perder as forças e morrer. No dia seguinte, o corpo de Iaçã foi encontrado abraçado à palmeira. A filha do cacique Itaki parecia estar serena e até sorria levemente. Abertos, os olhos dela dirigiam-se ao alto da árvore. Itaki viu um pequeno fruto escuro acumulado em cachos no alto da palmeira, para onde a filha sem vida olhava. Era o açaí. O cacique ordenou a sua colheita e fez com ele um suco de cor avermelhada e grosso, que passou a alimentar a população da tribo, colocando fim à escassez de alimentos. Por homenagem à sua filha, Itaki batizou o fruto de açaí, que é Iaçã ao contrário. Com sabor apreciado e propriedades nutricionais potentes, o alimento acabou com a fome na tribo.
De lenda à febre de consumo De alimento básico das populações ribeirinhas do Norte do Brasil, o açaí virou moda. Ganhou novos preparos, entrou de vez no cardápio de lanchonetes e sorveterias País afora, graças ao seu sabor e às suas propriedades nutricionais. Para quem já provou ou ouviu falar, mas não conhece bem o alimento, é um fruto brasileiro cultivado, predominantemente, na Região Amazônica. Com cor escura, que vai do roxo ao preto, e formato arredondado, o açaí nasce em cachos e, na maioria das vezes, em locais com solos mais úmidos ou alagados. A iguaria exótica ganhou importância ainda maior para a cultura amazônica, pois, desde que se tornou popular, a comercialização movimenta em torno de R$ 40 milhões por ano. E vem de uma das regiões mais isoladas do Amapá o único açaí do mundo com certificação ambiental. Consequência do trabalho da AmazonBai, uma cooperativa de pequenos produtores no arquipélago do Bailique, localizado a cerca de 160 quilômetros da capital Macapá, que compreende oito ilhas e onde vivem cerca de 10 mil pessoas. “A AmazonBai surgiu em um protocolo comunitário implementado dentro de todo o arquipélago Bailique, no ano de 2013/2014. Protocolo comunitário é um documento de consulta feito dentro das comunidades, para dialogar e formar um processo de desenvolvimento participativo no território. Ele foi discutido nas 51 comunidades.
A partir do protocolo comunitário, surgiram as demandas para se trabalhar com as cadeias produtivas do açaí, do pescado, dos óleos e das plantas medicinais”, conta Amiraldo Picanço, atual presidente da cooperativa. Ele lembra que, em 2014, começou-se a promover as boas práticas de manejo dentro do território. Mais de 200 famílias foram capacitadas com foco em gerar o mínimo impacto na coleta e manuseio do açaí. As famílias organizaram-se durante 2014 e 2015, quando surgiu a oportunidade de se trabalhar com a comercialização do açaí em grande escala. E, no final de 2016, a Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB), gestora do protocolo, recebeu a certificação FSC® já citada neste livro, que é a sigla em inglês para Conselho de Manejo Florestal, sendo a única do mundo que possui tal reconhecimento para o manejo do açaí com verificação de impactos positivos nos serviços ecossistêmicos de carbono e biodiversidade. A FSC® é uma ONG com presença em mais de 75 países, que distribui um dos selos verdes mais reconhecidos em todo o mundo. Para conseguir a certificação, é preciso seguir normas estritas: ninguém trabalha sem capacete, os trabalhadores usam botas, óculos de proteção, facão na bainha na hora de subir no açaizeiro, para realizar a coleta, e luva, a fim de debulhar o cacho. “A associação decidiu criar uma cooperativa, visando atuar na comercialização do açaí. A AmazonBai foi fundada em 14 de fevereiro de 2017. Com esse objetivo, surgiu e começou a se desenvolver dentro do território: comprar açaí dos cooperados. Eram 37 no início. Com o passar dos anos, outros foram aderindo”, lembra Amiraldo Picanço. Desde 2016, quando obteve a certificação do FSC® para o manejo florestal, a produção do Bailique vem ganhando força no mercado nacional e no exterior.
Além de tirar os atravessadores das negociações e ter exportado pela primeira vez em 2017, a cooperativa conseguiu montar um entreposto, a Casa do Açaí, o que permitiu vender o fruto in natura e a polpa certificada. Atualmente, fazem parte da AmazonBai 132 cooperados, com mais de 4 mil hectares e área certificada de manejo florestal comunitário: os açaizeiros extraíram árvores menos produtivas, para fazer o ajuste de espaço entre as plantas, facilitando a entrada de luz. Mais de mil árvores foram cortadas, o que possibilitará dobrar a colheita. As árvores derrubadas ficam no chão e servem de adubo. Em dezembro de 2021, deram mais um passo importante na valorização do fruto, com a inauguração de uma agroindústria, onde o açaí já está sendo beneficiado em polpas. De cada lata de açaí vendido, 5% são reservados para um fundo educacional. No futuro, esse dinheiro será usado tanto para construir quanto manter uma escola de ensino fundamental e médio para os alunos da região.
No ano passado, foram vendidas 8 mil latas de açaí, que renderam R$ 204 mil, dos quais R$ 10 mil foram direto para o fundo. O manejo dos açaizais assegura a manutenção da cobertura florestal e, por consequência, a conservação dos estoques de carbono e a preservação da diversidade de espécies. Dessa forma, a valorização do açaí do Bailique tem um papel fundamental na geração de importantes serviços ecossistêmicos, enquanto a certificação FSC® contribui para que esses benefícios sejam ampliados e mantidos em definitivo. Propriedades do açaí A exploração do açaí é de grande importância para toda a Região Norte do País, especialmente, Amazônia, Pará, Rondônia, Amapá e Acre. As atividades que abrangem a comercialização do fruto tiveram um salto muito grande desde 1992, época do ápice da exportação.
O crescimento deu-se, sobretudo, em virtude do aumento da pressão internacional para a preservação da mata amazônica. Além disso, houve um incentivo para que o manejo nos açaizais nativos fosse prioridade, tornando- -se, assim, a principal atividade e contribuindo para a diminuição dos desmatamentos e queimadas. Isso ocorreu também para que os trabalhadores tirassem o foco da extração ilegal da madeira e o colocassem na coleta do açaí. A polpa do açaí é recheada de nutrientes: ferro, cálcio, fósforo e vitaminas. De sabor marcante e com propriedades nutritivas, caiu no gosto de outras regiões do Brasil, até mesmo do mercado internacional.
A importância do fruto para a cultura amazônica vai muito além da alimentação: também é usado na área de cosmética e estética devido ao grande poder antioxidante – que previne o envelhecimento precoce e tem ação protetora sobre a pele. Açaí impulsiona economia local, mas produção é insuficiente De acordo com o relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em março de 2022, a dinâmica do mercado do açaí tem se caracterizado por uma demanda crescente e superior à oferta, o que vem pressionando os preços, sobretudo, com a elevação das exportações. Veja o que diz o relatório: “O mercado de açaí do Pará, maior produtor nacional, vem passando por mudanças estruturais nos últimos anos, tanto no consumo, com a elaboração de novos produtos industrializados, quanto no sistema de produção.
O Brasil é um grande produtor de fruto do açaí e o maior exportador de polpa congelada, mas ainda deixa a desejar, quando o assunto é a diversidade de produtos à base de açaí. A verticalização da cadeia do açaí é um dos principais aspectos que precisa ser trabalhado na cadeia produtiva desses frutos, com o objetivo de aumentar os ganhos dos produtores do fruto e ajudar a consolidá-lo no mercado internacional. No caso do açaí, a verticalização prevê a produção do maior número de variedade possível de produtos à base de açaí. Maior controle sobre a cadeia produtiva e de estoque com o uso de tecnologia apropriada é algo necessário que pode facilitar o domínio sobre a produção”. A safra do açaí no Pará chegou ao final no mês de dezembro, começando o ano na entressafra. Os preços no estado apresentaram variação típica desse período com aumento de 29,5% de dezembro de 2021 para janeiro de 2022. Porém, na comparação anual, a entressafra no estado iniciou com queda de 17,56% nos índices de preço do fruto na média paraense. Segundo informações de representantes de produtores extrativistas, no Baixo Tocantins no Pará, uma das maiores regiões produtoras de açaí no estado e, consequentemente, no País, houve grande produção do fruto na última safra, e a impressão é que pode haver um aumento no quantitativo produzido em relação a 2020.
Em 2020, a produção de açaí foi de 1.698.657 toneladas, 4,79% acima da obtida no ano anterior, todavia, ainda inferior do que no ano de 2018, quando a produção foi de 1.731.668 t (a maior de toda série histórica avaliada). Quanto ao valor de produção, em 2020, o índice foi o maior de toda a série histórica, registrando incremento de 79% em relação a 2019 no valor total de produção. Com isso, o preço do quilo do açaí subiu de R$ 1,85 em 2019 para R$ 3,21 em 2020. Tal comportamento é o provável resultado do aumento da pressão da demanda sobre a oferta do fruto.
Constata-se que a elevação da produção de açaí no mercado brasileiro vem ocorrendo de forma consecutiva. Nos últimos anos, com exceção de um ponto de inflexão de 2018 para 2019, quando houve redução de 6,2% do quantitativo total produzido, pode-se dizer que o crescimento exponencial da produção é o reflexo do aumento do mercado do fruto. Outro indicador relacionado à elevação da produção é a área cultivada. Com exceção de 2017 para 2018, o aumento na área de produção do açaí, entre 2015 e 2020, ocorreu de forma consecutiva, totalizando um acréscimo percentual no período de 61%. Entretanto, isso não significou necessariamente aumento proporcional de produção.

