“Pode continuar a entrevista o tempo que você quiser, moça! Agora eu gosto de falar dos produtos da floresta, de falar do meu trabalho, de falar de negócios… Eu adoro tudo isso aqui!”, respondeu Francisco
Assis, o presidente da Associação de Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri (AMORERI), e coordenador do centro de distribuição da rede Origens Brasil®, onde coleta os produtos dos extrativistas da Terra do Meio.
A rede funciona como um elo entre quem compra e quem produz, conectando as empresas aos produtores de diversas regiões da Amazônia, compartilhando a história e dando visibilidade ao trabalho dos povos da floresta—responsáveis por mantê-la em pé.
Com transparência e valorização aos povos tradicionais, a rede Origens Brasil® foi articulada e criada pelo Imaflora e Instituto Socioambiental e hoje já possui parceria com 35 empresas pelo país através de um mecanismo de compra responsável.
O Instituto Imaflora foi fundado há 27 anos em Piracicaba-SP, e atua em todo o Brasil com ações que contribuem para a conservação do meio ambiente, e também, melhorando e mantendo a qualidade de vida de trabalhadores rurais e florestais, populações tradicionais, indígenas, quilombolas e agricultores familiares.
Após os debates sobre as questões ambientais que começaram na década de 90, é que começou a ser desenhada a rede Origens Brasil®. “A Amazônia detém a maior biodiversidade do planeta, que está principalmente dentro das áreas protegidas onde vivem os povos indígenas e populações tradicionais. Essa biodiversidade se traduz em inovação e novos produtos para indústria alimentícia, saúde e bem-estar. A pressão das atividades ilegais e predatórias ameaça a permanência desses povos nos territórios, que são os maiores guardiões da floresta. Criar um sistema de garantia que valorize os povos e seus produtos, adequado à realidade, é conectá-los com mercados que remunerem de forma justa esse trabalho de produção e conservação”, explicou Patrícia Cota Gomes, Gestora da Rede Origens Brasil® e Secretária Executiva Adjunta do Imaflora.
De acordo com ela, a importância de agir naquele momento era fundamental, devido ao cenário que o país vivia. “Na época, havia muito garimpo. Com a Eco 92 a ideia era de boicote à extração não regulamentada de madeiras, mas não era somente esse o problema. Tinha que ser uma solução para várias áreas porque tinha produção de borracha, castanha, copaíba, mas precisávamos de um sistema para manter a floresta em pé, sendo compatível também com a história da região”.
Durante a pesquisa por empresas parceiras, Patrícia contou que descobriram empresas que não conheciam a origem e processo de produtos usados como matéria prima, como o caso da Wickbold. A partir daí outras empresas aderiram à ideia e, atualmente, são 35 empresas membros da rede, sendo o comitê consultivo formado por todas elas, que são: Atina; Bossapack; Lush; Mercur; Pão de Açúcar | Caras do Brasil; Wickbold; Tucum; Na Floresta; Beraca; Soul Brasil; Manioca; Feira na Rosenbaum; +55 Design; Bemglô; Osklen; Save the Forest; Jungle Joy Amazônia; Regenera; Amazonika Mundi; Amazon Tastes; Cocar e Co;Havaianas; Natura, Amamos Amazon; AMAZ; Citrobio; Déco Brésil; Dreams and Purpose; Mãe Terra; Moma; Prema; Vert; Urucuna; Warabu; e Amazonian Skinfood.
Pensando em compartilhar a história dos produtores aos consumidores, o Origens Brasil® criou um selo (que é o próprio QR Code) inserido na embalagem do produto das empresas membros da rede. O sistema funciona conectado a uma plataforma colaborativa, onde o consumidor conhece a origem dos produtos da floresta, as histórias dos povos e de seus territórios, estimulando relações comerciais mais éticas construídas a partir do diálogo, transparência e respeito à diversidade dos modos de vida tradicional.
O selo foi criado em articulação do Imaflora e o Instituto Socioambiental (ISA), ao longo de dois anos no Xingu, com amplo processo de consulta e participação que envolveu especialistas, lideranças dos povos da floresta, organizações comunitárias e empresas parceiras. A rede Origens Brasil® tem o propósito de aproximar o produtor do consumidor, promover relações comerciais mais éticas e construir as garantias necessárias por meio da rede de confiança formada por empresas, consumidores, produtores e organizações locais. O sistema foi lançado em 2016, iniciado com apenas três empresas e hoje são 35.
“Somente aqui na Terra do Meio, além das castanhas para a Wickbold, nós fornecemos outros produtos como copaíba para outras empresas, e também borracha para a Mercure para a Osklen. E nós já coletávamos castanhas e cortávamos a seringa há muito tempo.
A comunidade sempre existiu e fazia tudo isso. A grande diferença, é que com o apoio da rede Origens Brasil® e as empresas parceiras, nós aprende mos o significado do que fazíamos. Ganhamos conteúdo, conhecimento e aprendemos que todo produto tem sua origem, sua história e seu valor, assim como nós e a floresta”, disse Assis, responsável pela distribuição das mercadorias da Terra do Meio.
Extrativistas se tornam empreendedores
Exemplo dessa valorização, conhecimento e desenvolvimento das famílias extrativistas, é a história de Raimunda Nonato Araújo Rodrigues, 32 anos, descendente indígena do povo Xypaya, que se tornou gestora da Miniusina de Beneficiamento de Castanhas de Rio Novo, uma das comunidades que fazem parte da Reserva Extrativista Rio Iriri, no município de Altamira, no Pará.
A miniusina que desde 2011 faz o tratamento da castanha e do babaçu, transformando-os em óleos e farinhas, foi montada pela família de Raimunda. Antes de fundarem a miniusina, ela e a mãe já trabalhavam com os produtos, mas tudo manualmente, sem ajuda de máquinas.
“Aqui sempre teve muito babaçu, castanhas, mas nem imaginávamos em montar uma fábrica. Começamos a trabalhar com 60 caixas de castanhas, que não dava nem uma tonelada, e fazíamos a desidratação das castanhas no forno a lenha mesmo. Vendíamos na época para mercados locais e chegamos a levar para a região de Pinheiros, em São Paulo. Mas não tínhamos estrutura para ampliar esse trabalho”, relembra Raimunda.
Foi então que, em 2011, a sorte e o reconhecimento bateram na porta da família de Rio Novo. Raimunda conta que eles ganharam um sorteio do Google, visando a implantar um projeto entre as regiões da Amazônia, onde a família ganhou um valor expressivo que foi investido na criação da miniusina para beneficiamento das castanhas.
“Foi então que conseguimos comprar as primeiras máquinas e também receber apoio de projetos e parcerias como do Instituto Socioambiental – ISA, que nos apresentou e nos convidou para uma parceria com a rede Origens Brasil®. Eles fizeram estudos, até mapearam nossos castanhais para nos orientar a forma correta de trabalho e propor a parceria do beneficiamento das castanhas coletadas nas cantinas da rede. Nossa miniusina agora é a única da região que faz o tratamento das castanhas provenientes de 30 cantinas e paióis”, explica Raimunda, dizendo que as cantinas recebem os frutos de forma natural, e ela e a família transformam em produto, seja óleo ou farinha.
A fábrica possui 12 funcionários sendo todos da mesma família, tendo a mãe e seis irmãos também na produção. Para ela, a miniusina mudou a realidade de todos eles.
“Tenho uma irmã que possui seis filhos, e que nenhum deles tinham calçados porque ela não tinha condições de dar. Hoje, cada membro da família tira seu próprio salário da miniusina e melhorou a qualidade de vida dentro de casa”, conta a nova microempreendedora, que frisa a importância dos produtos da floresta para ela e sua família: “Peço que as pessoas que estão de fora, ao olhar a floresta em pé, vejam também que há outras pessoas que contribuem para isso. Que elas continuem consumindo nossos produtos, valorizando o povo da floresta que trabalha sem desmatar”, enfatiza Raimunda.
53 milhões de hectares de floresta mantidos em pé
Segundo relatório anual da rede Origens Brasil®, até 2022, já somam 46 áreas protegidas na Amazônia, sendo 32 já envolvidas com comercialização de produtos entre empresas parceiras e comunidades. Com atuação em cinco territórios, que são Calha Norte, Xingu, Rio Negro, Solimões e Tupi Guaporé, a rede calculou que contribui para a manutenção de 53 milhões de hectares de floresta em pé. Sem contar a valorização dos produtores, totalizando mais de 3.000 produtores e produtoras cadastradas, sendo destes 64 povos indígenas ou populações tradicionais entre os grupos indígenas, extrativistas e quilombolas, que são os guardiões da floresta.
“Estudos recentes da ONU mostram que os povos indígenas e populações tradicionais, apesar de serem minoria, são os responsáveis pela conservação de 80% da biodiversidade do planeta, biodiversidade essa que é fonte de inovação. Reconhecer o importante serviço prestados por esses povos da floresta é fundamental para construirmos um novo modelo de desenvolvimento mais ético e que contribua para a manutenção da floresta em pé”, ressaltou Patrícia Gomes.
Em reconhecimento a essa expansão do projeto e os resultados benéficos à população e ao meio ambiente, a rede Origens Brasil® recebeu várias premiações, tais como Prêmio Internacional da ONU para “Inovação para a Alimentação e Agricultura Saudáveis” (2019); Finalista do programa Katerva Awards, entre 5.000 negócios no mundo, e entre os 10 melhores da categoria “Mudança de Comportamento” (2019); Vencedor do Climate Ventures na categoria “Melhores Negócios para o Clima” (2018); e a Certificação da Fundação Banco do Brasil na categoria Tecnologia Social (2019).
Apesar do reconhecimento aqui e no exterior da marca Origens Brasil®, Patrícia ressalta que ainda é preciso que mais empresas se conscientizem sobre essa relação com os produtores na Amazônia, lembrando que existem muitas culturas e histórias pouco conhecidas e que é necessário valorizar o trabalho de quem mora na floresta.
“São muitas Amazônias dentro da mesma Amazônia. Muitas empresas ainda não olham para essa região como deveriam. A rede Origens Brasil® quer valorizar as pessoas que vivem na floresta e da floresta, porque não se trata somente de reconhecê-las como fornecedores de bens, mas sim, construir cadeias de fornecimento mais responsáveis que permitam compartilhar valor com esses povos e contribuir para a conservação da Amazônia como um todo”, finalizou.
