Exposição gratuita em SP destaca fotógrafas paraenses no mês da Mulher

Uma mostra que reafirma a relevância de uma produção fotográfica reconhecida internacionalmente e a pluralidade do Pará por olhares femininos. O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo recebe, a partir de 8 de março de 2025, Dia Internacional da Mulher, a exposição “VetoresVertentes: Fotógrafas do Pará”, um panorama da fotografia contemporânea feita por mulheres amazônicas. Projeto do Museu das Mulheres, com curadoria de Sissa Aneleh, a mostra reúne cerca de 160 obras – incluindo fotografias, jornais artísticos, propostas fotográficas, áudios e vídeos – distribuídas em cinco andares do edifício do CCBB.

A visitação inicia-se no 4º andar e segue um percurso descendente, até o subsolo, proporcionando ao visitante uma experiência fluida e imersiva, do tradicional ao experimental. A exposição que destaca a importância da representatividade e da autonomia das mulheres que traduzem a riqueza cultural e social da Amazônia, nasce de um extenso trabalho de pesquisa que vem sendo realizado há mais de uma década e propõe reflexões sobre identidade, território e memória, a partir da perspectiva de temáticas de 11 fotógrafas.

Para compor essa exposição, a curadora Sissa Aneleh realizou uma pesquisa aprofundada sobre a fotografia na Região Norte, buscando compreender o papel das mulheres fotógrafas naquele contexto e na história. “Era essencial trazer uma representatividade diversa, tanto geracional quanto estética. A fotografia feita por mulheres no Pará desafia os limites entre a arte, a documentação e a experimentação – é uma importante ferramenta de resistência e afirmação identitária”, explica a curadora.

A mostra apresenta um recorte inédito, que traça um panorama de mais de 40 anos de produção fotográfica feminina na Amazônia, reunindo gerações de artistas que exploram desde a experimentação visual até a documentação social. Entre as precursoras das décadas de 1980 e 1990 estão Bárbara Freire, Cláudia Leão, Leila Jinkings, Paula Sampaio e Walda Marques. Já a nova geração é representada por Evna Moura, Deia Lima, Jacy Santos, Nailana Thiely, Renata Aguiar e Nay Jinknss. Cada uma dessas artistas contribui, à sua maneira, para ampliar os repertórios da fotografia brasileira e desafiar concepções tradicionais sobre a Amazônia.

Para Cláudio Mattos, Gerente Geral do CCBB SP “receber essa exposição representa uma oportunidade de trazer ao público um recorte potente da fotografia brasileira, que revela novas narrativas conduzidas por mulheres que ressignificam o olhar sobre a Amazônia, seus territórios e suas histórias”.

PERCURSO

A exposição foi organizada de forma a proporcionar uma imersão na pluralidade das representações visuais, conduzindo o visitante por uma verdadeira jornada pela visualidade amazônica. No 4º andar, o público encontra um espaço dedicado à fotografia experimental e à manipulação de imagens, no qual linguagens inovadoras dialogam com a tradição e o contemporâneo. Ali, as artistas exploram o hibridismo da fotografia como suporte expandido, criando tensionamentos entre o real e o imaginado.

No 3º andar encontram-se trabalhos que utilizam a experimentação com imagens resultantes da manipulação digital e analógica usando negativos fotografados e arquivos digitais que somam experiências fotográficas na sala que apresenta desdobramentos fotográficos de Paula Sampaio, Walda Marques e Deia Lima, que flertam com novos suportes que se comunicam com o passado e o presente da fotografia.

O 2º andar destaca a presença de fotografias coloridas, com narrativas afro- indígenas e quilombolas, ressignificando o poder da imagem como instrumento de resistência e afirmação cultural, e exaltando o registro da cultura, da religiosidade e do cotidiano amazônico, com obras que transitam entre a fotografia documental, os gêneros fotográficos e a foto performance. Abordando identidade, feminino ancestral e corpo as fotografias capturam a vida ribeirinha e urbana, os rituais, as festas populares e as manifestações culturais que revelam a complexidade das relações entre tradição e modernidade na Amazônia urbana e da floresta. No espaço, é possível observar a forte presença feminina nos trabalhos das fotógrafas Evna Moura, Nailana Thiely, Jacy Santos, Nay Jinknss e Renata Aguiar. “São imagens de mulheres reais, regionais e brasileiras em diversos contextos, salvaguardando no registro fotográfico a humanidade local, os rituais afros e indígenas, além da pluralidade de identidades e culturas”, comenta a curadora.

No térreo, a experiência ganha camada imersiva e sensorial única: uma oca serve de cenário para se assistir a um filme em Realidade Expandida. O filme MUKATU’HARY (Curandeira) conduz o visitante a uma aldeia indígena de paisagem milenar para uma imersão na musicalidade e nos rituais ancestrais de Maputyra Guajajara. Baseado em um ritual real, apresenta um recorte autêntico dessa prática de cura. No subsolo, a exposição apresenta trabalhos em preto e branco sobre a historicidade da fotografia brasileira, ressaltando a relação entre regionalidade, território e memória. As obras expostas evocam reflexões sobre identidade e pertencimento, reafirmando que a fotografia é mais do que um registro – é um meio de contar e preservar histórias, atestando o valor da identidade brasileira e construindo novos imaginários sobre a Amazônia.

Em diferentes pontos do CCBB, a interatividade completa a experiência com arte e tecnologia. Os visitantes encontrarão fotos exibidas por Realidade Aumentada, com a possibilidade de selfies, vídeos e interação com obras disponíveis no prédio do Centro Cultural Banco do Brasil. No percurso, o visitante encontrará a instalação aromática Icamiabas, inspirada nas mulheres indígenas, e que aproxima os visitantes dos cheiros da Amazônia com seis perfumes preparados exclusivamente para a exposição. A exposição é patrocinada pelo Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A produção é do Museu das Mulheres e da MADAI.

AS ONZE FOTÓGRAFAS E SUAS CONTRIBUIÇÕES

Bárbara Freire: Une fotografia urbana e poética, destacando a relação entre narrativas fotográficas, audiovisuais e documentais em suas imagens, que ora estão no experimental, ora no registro da diversidade visual do Pará.

Cláudia Leão: Especialista em fotografia experimental, lança mão de processos alquímicos de fotografia, interligando elementos diversos aos processos de revelação de negativos fotográficos e composição física de obras.

Deia Lima: sua obra ressignifica a imagem das mulheres e apresenta a identidade visual regional na era digital.

Evna Moura: Explora a fotografia experimental, direta e performática, utilizando processos analógicos e digitais para criar imagens que dialogam com a ancestralidade, a espiritualidade afro-amazônica e o meio ambiente urbano amazônico, além de registrar personalidades LGBTQIAP+ regionais.

Jacy Santos: influenciada pela fotografia documental regional, suas imagens retratam o cotidiano amazônico com um olhar humanista e poético. Seu trabalho é um testemunho visual das identidades sociais e culturais da região.

Leila Jinkings: Fotógrafa e documentarista com forte envolvimento nos movimentos sociais, sua obra é um registro da luta política e cultural da Amazônia e do Brasil. Nailana Thiely: Dedica-se à documentação de culturas indígenas, ribeirinhas e afrodescendentes, acrescentando um olhar intimista aos retratados, o que valoriza a narrativa.

Nay Jinknss: Com uma abordagem decolonial e social, retrata questões de identidade, feminismo negro e mulheres representativas da cultura amazônica. Paula Sampaio: Reconhecida por seu trabalho no fotojornalismo e na documentação de comunidades ribeirinhas e quilombolas, retrata a resistência das populações tradicionais, as memórias urbanas de Belém e a exploração ambiental da Amazônia.

Renata Aguiar: Doutora em Artes Visuais, investiga as relações entre corpo, território, performance fotográfica, autobiografia, ritualidade e cultura artística local, além de abordar a representatividade LGBTQIAP+ na Amazônia.

o Walda Marques: Mescla fotografia documental e arte conceitual, percorrendo a identidade, a memória e a religiosidade urbana amazônica.

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