Ilha de Marajó ou a Ilha dos Búfalos

Já imaginou o seu lixo sendo recolhido por búfalos? Policiais montados em “patrulhas de búfalos”? Pois é, na Ilha de Marajó, no Pará, são os bubalinos que fazem esses serviços. O animal que parece ser exótico em outras regiões e conhecido somente pela origem de queijos e derivados que podem render, na Ilha de Marajó ele é tão comum quanto os habitantes humanos.

Segundo os dados do IBGE de 2020, no Estado do Pará, são 605.110 búfalos na tabela de rebanhos efetivos e, somente na Ilha de Marajó, 422.348 cabeças. Em Soure, cidade turística do arquipélago, o número de búfalos é bem superior ao de habitantes: são 25.752 pessoas, conforme o censo do IBGE de 2020, e mais de 95 mil búfalos, atualmente, de acordo com a Associação Paraense dos Criadores de Búfalos (APCB).

Essa é a história curiosa de como esses animais descendentes da Índia foram parar em uma ilha na Amazônia. Desde então, os búfalos passaram a ser o principal meio de desenvolvimento socioeconômico do arquipélago, além de animais de estimação para toda a população.

No Brasil, são reconhecidas pela Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB) quatro raças: Mediterrâneo, Murrah, Jafarabadi (búfalo-do-rio) e Carabao (búfalo-do-pântano).

Cada uma dessas raças de búfalos possui características próprias, mas todas são encantadoras pela docilidade.Segundo a tecnóloga de alimentos e responsável técnica da Fazenda Mironga, em Soure (PA), Gabriela Gouvêa Moura, além de dóceis, existem outras características principais desses animais: apresentam poucos casos de enfermidades; são nadadores exímios; e possuem ampla fertilidade. E foi com essas peculiaridades que os búfalos chegaram até a Ilha de Marajó: nadando! Segundo relatos históricos, no século XIX, os búfalos estariam em um navio com destino à Guiana Francesa, que teria naufragado perto de Marajó, fazendo com que eles nadassem até a terra firme mais próxima, que seria a ilha. Ao perceber a utilidade dos bichos, fazendeiros locais resolveram importar mais búfalos.

Na versão da Associação Brasileira de Criadores de Búfalos, a primeira introdução dos animais no Brasil foi realizada em 1890, pelo Dr. Vicente Chermont de Miranda, que comprou búfalos da raça Carabao para a Ilha de Marajó, pertencentes a fugitivos provenientes da Guiana Francesa, que naufragaram nas costas do arquipélago – fato que coincide com a história narrada pelos moradores da região. Ainda segundo a ABCB, em 1895, a Sra. Leopoldina Lobato de Miranda e os seus filhos realizaram uma importação de búfalos italianos para Marajó. Ambas introduções deram origem ao búfalo negro de Marajó.

 De acordo com dados da associação nacional, atualmente, o Brasil possui o maior rebanho do Ocidente: 3 milhões de cabeças. Desse número, grande parte dos animais está localizada em Marajó, no extremo norte do Pará.Soure, a “Capital dos Búfalos” Assim é reconhecido o município de Soure, na Ilha de Marajó. O apelido provém da quantidade expressiva de animais que supera a de habitantes. Segundo a ABCB, hoje, são mais de 95 mil búfalos na cidade, enquanto a população é de pouco mais de 25 mil. São 320 criadores do animal associados à entidade.

 E o motivo dessa grande população de bubalinos vai além do mais conhecido: a produção de queijos derivados do seu leite, que dá origem à famosa e nobre mussarela de búfala. Além disso, o animal, que é querido por todos, tornou-se o principal meio de transporte e de desenvolvimento econômico e social do município. “Em Soure, os búfalos são usados para recolher lixo da cidade em carroças e, no retorno, trazem areia e pedra que são destinadas às obras na cidade. Existem mais de 100 carroceiros. A Polícia Militar também tem patrulha em búfalos por meio de uma doação dos criadores e associados. Enfim, o búfalo representa a vida do município, a partir do fornecimento de proteína de primeira qualidade tanto com a carne e leite e derivados quanto com a imagem, sendo a identidade de Marajó.

 Sem contar que é um animal apaixonante e considerado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês) como o animal doméstico mais dócil do mundo”, frisa João Paulo Mota Melo da Rocha, presidente da ABCB.  Conforme relatos de João Rocha, já foram doados búfalos para o Exército Brasileiro nas bases das fronteiras e, para a Polícia de Soure, 12 a 14 animais por meio de criadores associados. Sobre a produção de derivados, o litro de leite bubalino em Soure custa em média de R$ 3,00 a R$ 3,50. Essa é considerada uma das principais fontes de renda da cidade. A Fazenda Mironga é uma das mais conhecidas pelos produtos derivados de búfalos em Soure. Segundo a responsável técnica da fazenda, são cerca de mais de 200 famílias que dependem da criação do búfalo, além dos vaqueiros, dos responsáveis pelo manejo e dos profissionais de turismo. “Na atualidade, somente na Fazenda Mironga, possuímos 100 animais e contamos com 12 colaboradores atuando na produção de búfalos, derivados lácteos, manejo de aves e turismo.

 A criação desses animais é feita com alimentação livre, água em abundância e condições que favorecem o conforto térmico para eles. Produzimos por mês: 250 kg de queijo do Marajó; 50 kg de manteiga de leite de búfala; e 80kg de doce de leite de búfala”, detalha Gabriela Moura, acrescentando que a criação dos animais não exige restrições: “As suas principais características são: rusticidade; apresentam poucos casos de enfermidades; nadadores exímios; e fertilidade”, ressaltou. Tecnologia deve aumentar reprodução A Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), do Governo do Estado do Pará, divulgou o nascimento da primeira bezerra por intermédio da técnica com produção in vitro, ou seja, por inseminação artificial, em dezembro de 2021. A notícia é do Projeto Central de Biotecnologia da Produção de Bubalinos na Ilha do Marajó, que, segundo a Fapespa, tem como objetivo promover o melhoramento genético do rebanho bubalino. O processo é desenvolvido nos municípios que fazem parte da ilha, localizados na mesorregião do Marajó.

O nascimento da primeira bezerra búfala, a qual foi gerada a partir da técnica de produção in vitro de embriões (PIVE) aconteceu na Ilha de Marajó, na Fazenda Paraíso, em Cachoeira do Arari. Djair Barreto e a essência de Marajó Dos álbuns pessoais até o rústico dos búfalos de Marajó. Nascido no município de São Sebastião da Boa Vista, arquipélago do Marajó, Djair Barreto, de apenas 27 anos, é conhecido por suas imagens nas redes sociais e trabalhos realizados no município de Soure, na Ilha de Marajó.

Em 2017, formou-se em Ciências Naturais com Habilitação em Biologia, pela Universidade do Estado Pará (UEPA), mas foi na fotografia em que descobriu seu talento. Iniciou utilizando um celular e criou o site “Fotografia Mobile” com dicas e tutoriais para fazer melhores registros com dispositivos móveis. No ano de 2017, ainda com o celular, teve sua primeira capa de revista da edição especial de julho, da Revista Pará+. Atualmente, trabalha como fotógrafo de álbuns e com eventos em geral. Além da paixão por viajar, o trabalho como fotógrafo fez Djair criar o projeto “Essência”, em 2019, que aborda fotos peculiares de histórias do povo marajoara.

Uma dessas histórias contadas por meio de álbuns de fotografias é a do jovem Rômulo e seu búfalo Pépe, que de animal para transporte turístico se tornou de estimação para a família. Um búfalo de família A partir do olhar observador das peculiaridades que o povo marajoara tem com a natureza e os animais, Djair Barreto registrou uma história inédita pelo projeto “Essência”. Rômulo de Carvalho Alves, 28 anos, foi criado desde pequeno com o búfalo carinhosamente batizado de Pépe.

A conexão entre os dois é tão ímpar que nos faz esquecer que o búfalo é um animal selvagem de mais de 1 tonelada. Rômulo é guia de passeios turísticos com búfalos, principal atividade da família e do município de Salvaterra. O seu primeiro contato com o búfalo Pépe foi quando o seu pai o comprou, com o objetivo de utilizá-lo como meio de transporte nos passeios turísticos, o que é comum em Soure e Salvaterra. No entanto, Pépe chegou machucado e sem condições para transporte, o que sensibilizou Rômulo. “Ele estava com o casco furado todo machucado, não servia para trabalhar com turismo. Daí, o meu pai queria vendê-lo, mas não tive coragem. Acabei comprando o animal do meu próprio pai, para que eu pudesse cuidar dele”, conta o guia turístico, lembrando que Pépe chegou com 3 anos em sua casa e, hoje, possui 10 anos de idade. Segundo Rômulo, o búfalo é um animal comum em Marajó, que atrai os olhares de turistas.

Ele comenta que o passeio montado no animal é uma atividade frequente na região, no entanto, nem sempre possui os cuidados adequados pelo proprietário. “Quando cuidei do Pépe, usei os conhecimentos da época em que trabalhei com um médico veterinário. Existem várias orientações importantes. Apesar de grande e rústico, o animal precisa de cuidados durante os passeios, como o fato dele boiar nos rios. Os guias não sabem orientar, colocam os turistas nas costas do animal ao nadar, sendo que ele boia. Então, se você é amante do animal, não vai maltratá-lo. Vai cuidar dele para ser além de um transporte para montaria”, alerta Rômulo. Pépe não é o primeiro búfalo da família de guias turísticos. De acordo com Rômulo Alves, antes dele, tinha Jacó, que viveu até seus 42 anos.

 A família de Rômulo já trabalha com passeios turísticos com búfalos há 20 anos. Conforme o jovem, ele cuida dos búfalos como se fossem de estimação. De acordo com o guia, os passeios com búfalo, que são tradicionais em todos os municípios da Ilha de Marajó, variam de R$ 100 a R$ 250, dependendo do município. O passeio com os turistas passa desde à mata, os mangues, lagos até chegar à praia do arquipélago. Para o fotógrafo Djair Barreto, Marajó é um lugar inspirador e paradisíaco, com cores, formas e texturas, que vão do campo e manguezal a praias, além de pessoas humildes e acolhedoras que se interligam com a natureza.

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