Borracha constrói história da Amazônia com árvores que sangram

A história econômica da Região Norte do Brasil confunde-se com a da borracha natural. Produto obtido a partir do extrativismo, trata-se de uma atividade permanente e essencial para milhares de comunidades na Floresta Amazônica.

A borracha natural vem do látex, líquido espesso e branco extraído da seringueira, planta nativa da Região Amazônica. Junto com o aço e o petróleo, o látex é uma matéria-prima estratégica e sustentável, sendo a base de muitos processos industriais.

É uma seiva leitosa produzida na casca da seringueira, matéria-prima da borracha natural e fundamental para a manufatura de mais de 40 mil produtos utilizados no nosso dia a dia: pneus, brinquedos, acessórios, calçados, autopeças, na fabricação deluvas cirúrgicas, seringas, cateteres e cápsulas.

A indústria de pneus é a maior consumidora dessa matéria-prima. No Brasil, 80% da borracha obtida nos seringais seguem para a produção de pneus.O País foi, até o século XIX, o principal fornecedor mundial. Atualmente, detém apenas 1,5% desse mercado, segundo dados da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor).

Atualmente, os estados brasileiros que abrigam a Floresta Amazônica têm uma participação muito pequena na produção nacional de borracha, que não chega a 1%. Conforme levantamento feito pelo IBGE, o Pará produziu 1412 toneladas em 2021, seguido do Acre com 169 toneladas e do Amazonas com 22 toneladas.

O corte da seringueira é o símbolo do extrativismo na Amazônia, especialmente, no Acre, e deu origem a grandes movimentos migratórios para a ocupação da região, denominados “ciclos da borracha”. O mais expressivo deles ocorreu no final do século XIX e início do XX, quando retirantes nordestinos fugiram da miséria e da seca em direção aos seringais amazônicos em busca de uma vida melhor. O seringueiro que trabalha em floresta nativa, normalmente, pode “sangrar” de 140 a 160 árvores por dia, recolhendo de 15 a 20 litros de látex. Uma árvore produz, em média, 4,5 litros de látex por ano. Os seringueiros trabalham dois meses por ano com duas pausas: uma quando se dedicam à coleta dos frutos da castanha; e outra quando as seringueiras perdem as folhas. Como a seringueira vive bastante tempo, a seiva leitosa pode ser extraída ao longo de várias décadas.

 A fabricação de borracha natural no Brasil começou ainda no século XIX e ganhou força no período histórico conhecido como Ciclo da Borracha, que corresponde ao período em que a extração e a comercialização de látex foram atividades basilares da economia. Ocorreu na região central da Floresta Amazônica entre os anos de 1879 e 1912, além de outro curto período que compreende os anos de 1942 e 1945. Na chamada “Belle Époque Amazônica”, cidades como Manaus, Porto Velho e Belém tornaram-se as capitais brasileiras mais desenvolvidas. Tinham eletricidade, sistema de água encanada, esgoto, museus e cinemas. Um dos principais cartões-postais da capital amazonense, o Teatro Municipal, foi erguido naquela época. Tudo construído sob influência europeia.

No entanto, os dois ciclos acabaram de maneira repentina, principalmente, em razão da falta de políticas públicas para o desenvolvimento da região. A demanda provocada pela Revolução Industrial fez da borracha natural um produto supervalorizado. Passou a ser utilizada em pneus de automóveis, motocicletas e bicicletas, na fabricação de correias, mangueiras, solas de sapatos etc. Nesse período, cerca de 40% de toda a exportação brasileira eram provenientes da Amazônia. Muitas vilas e povoados ribeirinhos surgiram. As cidades já existentes prosperaram.

Além do desenvolvimento socioeconômico, centenas de milhares de trabalhadores, sobretudo, do Nordeste, migraram para a região. Todavia, desde o fim desse ciclo, no início do século XX, o Brasil perdeu expressão no cenário mundial da borracha natural. De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o País chegou a ser o maior produtor mundial até meados da década de 50, porém, sofreu um forte declínio da produção devido ao crescimento da atividade em outros continentes, principalmente, na Ásia.

 Com isso, veio a perda da competitividade. Atualmente, passou a responder por pouco mais de 1% da produção mundial. Tornou-se dependente do mercado externo. Legado de Chico Mendes Durante os anos de 1970 e 1980, o governo brasileiro deu muito apoio para pecuaristas implantarem fazendas na Região Amazônica. Os moradores da floresta eram expulsos para que a mata fosse transformada em pasto. No Acre, os seringueiros, liderados por Chico Mendes, descobriram uma forma de lutar pela terra, dando autonomia aos seringueiros da região. Como forma alternativa à ocupação do território, foi criado um novo modelo denominado Reserva Extrativista (Resex), onde as terras pertencem à União mas com o usufruto dos que nela habitam e trabalham.

Na definição da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, essas reservas são espaços territoriais protegidos, cujo objetivo é a proteção dos meios de vida e a cultura de populações tradicionais, bem como assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da área. O sustento dessas populações baseia-se no extrativismo e, de modo complementar, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte. Foram introduzidas pela Lei 9.985/00, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).

Elas são criadas por lei e administradas pelo órgão ambiental correspondente: se lei federal, a responsabilidade será do Instituto Chico Mendes (ICMBio); se lei estadual ou municipal, será responsabilidade do órgão ambiental respectivo. A área das reservas pertence ao domínio do Poder Público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais. As áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei. A visitação pública é permitida, desde que compatível com os interesses locais e o disposto no plano de manejo da unidade. Quanto à pesquisa científica, é permitida e incentivada, contanto que autorizada pelo órgão ambiental responsável. Na Amazônia, as reservas extrativistas cobrem uma área que representa cerca de 4,8% da Amazônia Legal, 19% das Unidades de Conservação da Amazônia e 8% das florestas da região, beneficiando aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Esses projetos agregam valor aos produtos naturais da floresta e costumam fomentar o desenvolvimento de áreas, como educação básica e assistência à saúde nas localidades. No entanto, tal atendimento não consegue alcançar todas as famílias das comunidades.

Chico Mendes, líder seringueiro assassinado há mais de 30 anos, dá nome a uma das reservas mais importantes da Região Amazônica. Foi uma das primeiras do Brasil, criada em 1990, 2 anos após a morte do líder, simbolizando a luta dos povos da floresta pelo direito de preservar os seus modos de vida, de forma sustentável, em meio à expansão do agronegócio. Fica na divisa com a Bolívia e o Peru, na região sudeste do Acre, com uma área aproximada de 970.570 hectares. Abrange sete municípios e aproximadamente 3 mil famílias, que vivem da extração de látex e da coleta de castanha. A Resex Chico Mendes é fruto de uma longa luta dos seringueiros que faziam oposição aos modelos de desenvolvimento definidos pelo governo brasileiro para a Região Amazônica na década de 1970.

 O processo iniciou-se em Xapuri, no Acre, onde Chico Mendes se firmou como liderança na reivindicação de espaços territoriais destinados a assegurar o uso sustentável dos recursos naturais e proteger o meio de vida e a cultura das populações tradicionais da floresta. Originalmente, as atividades econômicas que movimentavam essa reserva eram apenas a extração da borracha e da castanha. Entretanto, nos últimos anos, outra atividade tem se intensificado dentro e fora da unidade: a pecuária. A criação de gado não é permitida em reservas extrativistas, com exceção daquela feita em pequena escala para fins de subsistência. Contudo, a Resex Chico Mendes tem sido ameaçada por questões de desmatamento, caça ilegal, grilagem e invasão em virtude do interesse em trocar o extrativismo da borracha e – e da castanha, praticado há décadas – pela pecuária. Grileiros vêm pressionando e ameaçando os extrativistas para venderem ou entregarem as áreas de floresta, para serem derrubadas e transformadas em pastos para a criação de gado. A atividade pecuarista é voltada tanto ao mercado interno acreano quanto à exportação para Peru e Bolívia pela Rodovia Interoceânica, que liga o Acre aos portos do Oceano Pacífico. Calcula-se que 3,5 mil famílias vivem, atualmente, na Resex Chico Mendes.

 Com o apoio de ambientalistas e dos sindicatos dos trabalhadores rurais dos seis municípios acreanos que formam a Resex – Assis Brasil, Brasiléia, Xapuri, Capixaba, Rio Branco e Sena Madureira –, os seringueiros e castanheiros estão denunciando aos órgãos de controle do setor as crescentes pressões e ameaças que estão sofrendo por parte dos grileiros. Sapatos e acessórios Segundo o IBGE, a produção de borracha no Acre tem variado positivamente desde 2016, impulsionada pelo crescente valor do preço pago ao extrativista, fato possível devido à agregação de valor no âmbito da Cooperativa Central dos Extrativistas, inserção do produto em mercados diferenciados e pela política de subvenção federal e estadual. O Acre fica atrás somente do Amazonas na produção de borracha.

O levantamento do IBGE também mostra que o valor da produção da extração vegetal no Acre é o maior dos últimos 10 anos. Em 2021, esse valor totalizou R$ 110,7 milhões, representando um crescimento de 87%, se for comparado ao ano de 2020. Há quem se reinvente diante da riqueza oferecida pelo látex. Caso do seringueiro José Rodrigues, que transforma a matéria-prima em sapatos, sapatilhas, colares e bolsas. Conhecido como “Doutor da Borracha”, ele une os conhecimentos tradicionais, passados por seu pai, também seringueiro, com uma técnica que aprendeu durante um curso realizado no Acre, desenvolvida pelo Laboratório de Tecnologia Química da Universidade de Brasília (UnB), chamada Folha Semiartefato (FSA). José Rodrigues, ou melhor, “Doutor da Borracha” nasceu em Assis Brasil e trabalhou no seringal. Hoje, participa de feiras Brasil afora, mas mantém a vida simples, acordando cedo todos os dias para extrair o látex, que, misturado com um produto químico chamado ácido pirolenhoso, coagula o líquido leitoso, formando uma película que descansa no fundo da bandeja. A película é passada várias vezes em um cilindro manual até ficar bem fina. Depois, ela seca. Com as mantas secas, José começa a montagem dos sapatos. “Cinco da manhã é o horário que o seringueiro vai para a mata. Levo em média de duas a três horas cortando a seringa e mais uma hora e meia a duas colhendo o látex. Daí, retorno para casa”, conta o “Doutor da Borracha”, para quem a maior felicidade é ver a empolgação das pessoas e lojistas ao conhecerem os produtos que fabrica. “Quando iniciei esse trabalho, não tinha noção da mina de riquezas, não de valores, mas de conhecimento da floresta que eu estaria levando para o mundo’, comemora. Tênis francês Uma das reservas extrativistas que apresentam resultados positivos ligados à cadeia de valor da borracha é a do Alto Juruá. Lá, as famílias reorganizaram-se em torno da coleta do látex após a realização de oficinas de manejo e boas práticas de produção com investimentos da empresa francesa Vert Shoes.

 Reconhecida no mercado pela pegada socioambiental de todas as linhas de produtos que desenvolve, a marca agrega na produção conceitos como o uso de matérias-primas sustentáveis. Um dos materiais utilizados é a borracha natural da Amazônia – único lugar no mundo onde as seringueiras crescem em estado selvagem – utilizada nas solas dos tênis. Desenvolvido na Universidade de Brasília, o processo Folha Defumada Líquida (FDL) permite que os produtores transformem o látex em folhas de borracha sem uma fase industrial intermediária.

A matéria-prima atende a demanda da Vert, que utiliza borracha natural na fabricação de tênis em cerca de 40% da composição das solas. Desde 2007, a Vert Shoes apoia a estruturação de cadeias produtivas de látex natural no Acre, em parceria com associações de extrativistas. De acordo com informações divulgadas pela empresa, atualmente, mais de 1,2 mil famílias de seringueiros estão diretamente envolvidas na cadeia de fornecimento do látex. Eles discutem e definem com os representantes dos agricultores para alcançar o valor correto tanto para os produtores quanto para as cooperativas, de acordo com os princípios do comércio justo. Atualmente, a área de floresta preservada pelos seringueiros parceiros da Vert é de 9 mil hectares.

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