Pirarucu: o peixe que sustenta as famílias ribeirinhas

Não é à toa que o pirarucu é o segundo maior peixe de água doce do mundo. O primeiro é o esturjão-beluga, mas o Arapaima gigas, nome científico do pirarucu, tornou-se ainda maior, não por seu tamanho, e sim pela sua importância para a Amazônia. O pirarucu passou a sus­tentar as famílias ribeirinhas e ajudar a manter a floresta em pé. Sim! Um peixe de água doce pode contribuir para conservar a floresta, os seus lagos e outras espécies a partir do manejo sus­tentável de pesca.

Essa história pode ser comprovada na Reserva de Desen­volvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, uma área protegida locali­zada no estado do Amazonas, na região do Médio Solimões. Trata­-se da maior reserva florestal do Brasil dedicada, exclusivamente, à proteção da várzea amazônica, onde o manejo de pirarucu virou a principal atividade econômica, social e ambiental da região.

O gigante, que já quase desapareceu da Amazônia na dé­cada de 90, saiu do risco de extinção para principal fonte de ren­da e motivo de preservação da floresta. Na busca de resgatar a espécie, um dos primeiros órgãos a incentivar o manejo de pesca do pirarucu foi o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Ma­mirauá, que, em 1998, criou o Programa de Comercialização do Pescado, atual Programa de Manejo de Pesca.

O Instituto Mamirauá é uma organização social (OS) fo­mentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações do governo federal, que desenvolve suas atividades por meio de programas de pesquisa, manejo de recursos natu­rais e desenvolvimento social, principalmente, na região do Mé­

dio Solimões, estado do Amazonas. O programa foi criado com o objetivo de promover a conservação dos recursos pesqueiros por intermédio do manejo participativo.

A partir daí, outros grupos de pescadores tornaram-se manejadores, e outras instituições também entraram nos programas pela conservação da espécie e subsistência dos povos de Mamirauá. Uma delas é a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que passou a ofertar oficinas e monitorar os pescadores, ensinando de perto todos os passos do manejo: desde a vigília dos lagos à contagem das espécies que passaram a repovoar Mamirauá, trazendo conscientização, sustento e esperança de volta às famílias ribeirinhas.

Pescadores tornam-se defensores dos lagos e da floresta

Com o lema de cuidar das pessoas e da floresta, a Fundação Amazônia Sustentável foi fundada em 2008, com sede em Manaus (AM). É uma organização da sociedade civil e sem fins lucrativos que atua com projetos voltados para educação, empreendedorismo, turismo sustentável, inovação, saúde e outras áreas prioritárias. Por meio da valorização da floresta em pé e da sua sociobiodiversidade, a FAS desenvolve trabalhos que promovem a melhoria da qualidade de vida de comunidades ribeirinhas, indígenas e periféricas da Amazônia.

Com esse intuito, segundo o gerente do Programa Floresta em Pé da FAS e coordenador das feiras de pirarucu manejado, Edvaldo Corrêa, a entidade passou a apoiar cadeias produtivas de Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia, em 2010. Na época, com recursos do Fundo Amazônia, a FAS começou a trabalhar em um território de 16 unidades a partir de um termo de cooperação com o Governo do Estado do Amazonas, pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). Logo, passaram a promover programas de incentivo, visando melhorar a qualidade de vida de quem já vivia nessas 16 unidades.

Antes de criar o projeto de manejo de pirarucu, Edvaldo Corrêa conta que foi instituído o Programa Bolsa Floresta, atualmente denominado Guardiões da Floresta, que é um pagamento por serviços ambien­tais (PSA) e representa transferência direta para essas famílias. Até 2020, a bolsa, que era de R$ 50 para cada família, contemplava 9 mil cadastradas. Atualmente, o programa paga R$ 100 como forma de recom­pensar essas pessoas que participam dos projetos da FAS, contribuindo para a conservação.

“Vimos que precisávamos atuar no fortalecimento das associações dos extrativistas, emponderá-las, e ajudar na infraestrutura comunitária nas questões de saúde e educação, além da geração de renda.

Era preciso melhorar aquelas cadeias produtivas que já existiam nas unidades, desde a agricul­tura familiar com o açaí, as castanhas e outros frutos até a extração de borracha, manejo de madeira e a pesca do pirarucu. Resolvemos, então, investir nesses sistemas produtivos e identificamos que, das 16 unidades que atuávamos, cinco já trabalhavam com a pesca do pirarucu, contudo, precisavam se desenvolver, para que o manejador conseguisse agregar valor ao seu produto e ter melhor qualidade de vida”, explica Corrêa.

Morador do município de Fonte Boa, localizado dentro do território da Reserva de Mamirauá, o pes­cador Edson Carlos Gonçalves de Souza, 40 anos, atual supervisor do projeto de manejo do pirarucu da FAS, lembra do período em que o peixe corria risco de entrar em extinção, enquanto ele e outros pescado­res, desesperados, não sabiam o que fazer. “Cresci vendo barcos de grandes proprietários, que, inclusive, arrendaram lagos e pegavam todos os peixes, ou seja, toda a produção que precisávamos. Aos poucos, os peixes foram sumindo, e o trabalho do manejo tornou-se uma necessidade

Além da Reserva de Mamirauá, outras quatro UCs foram identificadas pela FAS, onde já trabalhavam com pesca de pirarucu. Eram as as Reservas de Desenvolvimento Sustentável de Cujubim, Acari, Piagaçu­-Purus e Amanã. Nelas, segundo Edvaldo Martins, a FAS identificou a necessidade de estrutura e técnicas destinadas ao trabalho com manejo de pesca do peixe gigante.

“Diante da situação, resolvemos captar recursos para ajudar essas famílias. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, foi nosso parceiro por 7 anos nesse projeto. Depois, vieram outras parcerias. Nessa época, identificamos a deficiência de equipamentos básicos des­tinados à pesca do pirarucu, tais como: canoas para transportar a espécie, que pesa em torno de 50 kg; as malhadeiras utilizadas para pescar o peixe, que são bem caras; e os flutuantes, modelos de barco que servem para fazer a proteção e a vigilância dos lagos e dos peixes”, revela Edvaldo Corrêa, lembrando que há várias regras e fases no manejo, inclusive, o período correto para fazer a pesca.

O pirarucu é protegido pela Instrução Normativa 34, de 18 de junho de 2004, do Ibama, que estabe­lece normas gerais para o exercício da pesca do Arapaima gigas na Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas. De acordo com a norma, anualmente, são proibidos a captura, a comercialização e o transporte do pirarucu, conforme o cronograma nos seguintes estados: Amazonas, Pará, Acre e Amapá, no período de 1º de de­zembro a 31 de maio; Rondônia, de 1º de novembro a 30 de abril; e Roraima, de 1º de março a 31 de agosto.

“Após o risco de extinção da espécie na década de 90, houve uma campanha de orientação nas comunidades. A partir disso, as pessoas começaram a entender que se não tivessem feito um trabalho de proteção, elas e as próximas gerações não teriam o pirarucu mais para alimentação, muito menos para comercialização”, frisa Edvaldo Corrêa.

Por sua vez, Edson de Souza, pescador e atual supervisor do projeto, relembra que, no início do processo, foi um pouco difícil, pois ficaram 2 anos consecutivos sem pescar pirarucu com as ações de fechamento dos lagos.

— Abraçamos a causa e arriscamos. Paramos as atividades de pesca em 45 lagos por 2 anos seguidos, esperando as áreas se recuperarem. Foi, então, que o manejo uniu todos os pescadores, porque sobrevi­víamos da pesca. Passamos a pescar outras espécies somente para subsistência em rios. Quando alguém passava necessidade, era uma família ajudando a outra. Dividíamos até o açúcar uns com os outros, mas compensou, pois notamos dentro de 1 ano que os lagos começaram a se recuperar.

No primeiro ano, já tinham mais de 100 pirarucus. Percebemos que o manejo não era só o repovoamento, mas um planejamento que ia dar certo – contou o supervisor do projeto, lembrando que ele e os demais pescado­res participavam das reuniões e cursos de capacitação da FAS, onde aprenderam as técnicas do manejo de pesca.

Segundo Edvaldo Corrêa, o manejo do pirarucu requer planejamento dividido passo a passo entre os manejadores: “A defesa e a vigilância dos lagos são etapas essenciais, que podem ser organizadas por comu­nidade ou por setor. Cada setor é formado por cinco ou seis comunidades devido à distância de uma das ou­tras na Amazônia. Nessa primeira fase, eles se organizam em forma de revezamento. Nos períodos das cheias dos lagos, com a ajuda de um flutuante, seja doado pela FAS ou outros parceiros, os pescadores se revezam vigiando os lagos, com a intenção de evitar que invasores apareçam para pescar em suas áreas”, detalha.

De acordo com Edvaldo Corrêa, cada unidade possui um decreto de criação, que restringe moradores de outros municípios a não pescarem no local. “Eles possuem um acordo entre a comunidade e os manejado­res pelo plano de gestão, no qual somente pescadores moradores daquela unidade, capacitados com o mane­jo, podem pescar na região. Outra etapa do manejo é a contagem, de onde sai o número que vai fazer com que o Ibama determine uma liberação de cotas da quantidade de pirarucu que será permitido pescar”, explica.

Ainda conforme o coordenador das feiras de pirarucu manejado, o Ibama determina a cota, de acor­do com a quantidade de espécies contadas, e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, responsável pelo território, é quem emite um relatório de validação dessas parcelas.

“Cada grupo organizado para pescar pirarucu possui uma quantidade X determinada para a ativi­dade, que varia de acordo com o local. Isso acontece depois do processo de contagem de pirarucus. A princípio, os pescadores fazem um zoneamento do lago, dividindo-o entre: berçário, que é proibido para a exploração pesqueira por ser considerado para reprodução, onde estão os peixes menores; área de ma­nutenção, onde pode praticar a atividade para obter a própria alimentação o ano todo; e o lago, destinado à comercialização”, exemplifica Corrêa.

A vigília e a identidade dos gigantes

Outra importante regra apontada pelo gerente da FAS, Edvaldo Corrêa, conforme a normativa do Ibama, é que o pirarucu tem o tamanho mínimo para ser pescado. Legalmente, somente é permitido pes­car os peixes acima de 1,5 m, menor que esse tamanho é proibido. Nessa categoria de restrição, entram os chamados “budecos”, apelido dado aos peixes pequenos pelos pescadores.

E você deve estar se perguntando como eles fazem para medir e contar os pirarucus debaixo d’água, não é mesmo!? De uma forma quase inacreditável, que demanda muita paciência e dedicação. De acordo com Corrêa, a contagem dos pirarucus é executada por meio de uma técnica criada pelos próprios ribeiri­nhos, inclusive, que já foi comprovada cientificamente a partir de pesquisas pelo Instituto Mamirauá.

“Eles contam o pirarucu na hora em que o peixe boia na superfície da água, porque essa espécie sobe para respirar a cada 20 minutos. Nesse momento da chamada boiada, os pescadores contam cada peixe. Eles se posicionam no entorno do lago, ficando uma pessoa a cada 20 metros para vigiar. Naquele raio de ação, eles visualizam quantos pirarucus vão boiar a cada 20 minutos. Anotam com caneta e papel quantos boiam. Desse modo, observando a altura que os peixes sobem para respirar, os pescadores calcu­lam e distinguem se os pirarucus são grandes ou pequenos”, detalha Edvaldo Corrêa.

Após essa “vigília dos peixes”, os manejadores reúnem-se para elaborar uma relação com os núme­ros e as respectivas identificações. Os relatórios concluídos são enviados ao Ibama, que tem a atribuição de definir a quantidade permitida para o pescado. Segundo Corrêa, o órgão libera somente 30% em cima do quantitativo dos peixes grandes classificados como adultos para cada grupo de pescadores.

“Após a autorização da cota, vem outra etapa, que é a despesca, procedimento que retira o peixe da unidade de cultivo com base no tamanho comercial desejado. Tudo é feito com muito planejamento, pois são peixes de 50, 60, 120 até 200 kg, varia muito. É preciso organização do que cada um vai fazer na atividade da pesca. Entretanto, a média geral é de 50 a 60 kg”, pontua o gerente da FAS.

Para a despesca, o grupo de manejadores divide-se em várias tarefas: uma equipe para pescar; e outra para carregar o peixe nas costas e transportar pelas canoas até chegar ao primeiro flutuante, onde será feito o tratamento do peixe. Lá, haverá uma terceira equipe que removerá o bucho, que é o processo de evisceração, funciona como uma limpeza. Em seguida, o pirarucu terá o seu tamanho medido e será pesado, além de verificado o sexo. No final, o peixe é lacrado com um número de identificação.

“Cada pirarucu possui um lacre com um número de ordem em sequência, como uma identidade, com o nome do local, nesse caso, a UC onde foi pescado, além de outros dados. Depois de lacrado, é colo­cado nos barcos geleiros, que servem como um armazenamento provisório para ser comercializado. É um trabalho em conjunto”, acrescenta Edvaldo Corrêa.

E quem pensa que entre essas equipes do manejo só existem homens está muito enganado. O públi­co feminino também está exercendo a atividade pesqueira. As pescadoras ainda são minoria nesse meio: cinco mulheres para 33 homens somente no grupo do município de Fonte Boa, da Reserva de Mamirauá. Entre essas cinco mulheres, está Maria do Rosário Seabra de Freitas, 47 anos, que vem de uma família de pescadores e acompanhava a atividade dos pais desde os 10 anos, para garantir a própria alimentação. No manejo, Maria do Rosário Freitas não chega a carregar o pirarucu nas costas, mas é responsável pela fase da despesca, na limpeza da espécie de 50 kg e mais de 1,5 m de comprimento.

“Antes, eu fazia somente uns bicos, trabalhos extras. Atualmente, nós sobrevivemos da pesca de pirarucu. Há algum tempo, o peixe era apenas para alimento, agora, temos uma renda por meio dele. Com o manejo e as vendas do peixe, conseguimos construir um lar, compramos eletrodomésticos, como a gela­deira, e ainda aprendemos a preservar e cuidar. Preservação é isso, é cuidar do futuro que está por vir. Isso é o importante para nós”, frisa Maria do Rosario.

Edvaldo Corrêa informa que os manejadores e as manejadoras realizam uma capacitação e, a cada ano, passam por oficinas de reciclagem que contemplam uma avaliação sobre os passos do manejo, princi­palmente, no quesito relacionado à contagem de pirarucu.

“Após o manejo, iniciamos um curso de capacitação de beneficiamento com eles. Recentemente, a FAS focou em um grupo de cerca de 200 manejadores da Reserva de Mamirauá, situada no município de Juruá (a 672 km de Manaus). Lá, existem mais de mil manejadores que devem acompanhar de perto e monitorar essas atividades. O nosso objetivo é sempre analisar como cada grupo produz e comercializa, visando ajudá-lo a desenvolver valor em seu produto”, conta Corrêa.

Corrêa aponta os desdobramentos dessa experiência com 200 pessoas. “Nessa iniciativa, descobrimos que eles pescavam, tiravam o bucho e vendiam no barco atravessador um peixe inteiro, do jeito deles e a qual­quer preço. O preço era baixo, porque os pescadores não tinham como nem onde armazenar e, com isso, des­valorizavam o próprio trabalho. Daí, o que pescavam precisava ser vendido logo. Diante desse cenário, firmamos uma parceria com alunos de MBA da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, que vieram para a Ama­zônia, visando estudar uma solução tanto de apoio da FAS aos pescadores quanto de precificação do pirarucu na comunidade em questão. Começamos, então, a estruturar a comercialização dos manejadores”, comenta.

Guardiões do Arapaima gigas tornam-se empreendedores

Com um olhar desde a cadeia produtiva até a ponta do mercado, pensando na população e no de­senvolvimento, o gerente do Programa Floresta em Pé da FAS, Edvaldo Corrêa, disse que a fundação deu início a uma estruturação na forma de como vender o pirarucu. Para isso, foram adquiridos barcos e meios de armazenamento, visando melhorar a logística e apoiar os manejadores de Mamirauá. Uma nova estraté­gia para dividir as formas de comercialização também foi implementada.

“Fizemos uma divisão do pirarucu, buscando valorizar o seu preço. Começamos a vender o peixe por parte: filé, manta, carcaça e até a pele. Desse modo, montamos uma estrutura de frigorífico, para armaze­nar e vender o pirarucu fatiado. A partir daí, o pirarucu deixou de ser vendido entre R$ 2,50 e R$ 3,00 o quilo. Conseguimos agregar valor para os manejadores, além de nos aproximarmos de grandes empresas e frigoríficos. Agora, os manejadores comercializam o peixe por R$ 9,00 o quilo”, mostra Corrêa.

Atualmente, segundo o gerente da FAS, os manejadores conseguem ganhar até mais do que um salário mínimo com a pesca do pirarucu. De acordo com ele, dependendo do grupo de pescadores e a quantidade de peixes arrecadados, a atividade rende até R$ 5 mil reais para cada manejador.

“Começamos a ver as casas das pessoas melhorando. Os pescadores passaram a colocar os seus filhos para estudar. Eu mesmo fiz um curso de Técnico Pesqueiro, que me ajudou a virar o líder de um setor.

O manejo abriu muitas portas, mas, principalmente, nós aprendemos a legalização e a valorização do nosso trabalho. Antes, como eu disse no início, nós víamos os grandes comerciantes levando os peixes da gente.

Agora, que a FAS nos ensinou a valorizar o nosso trabalho, ficamos de frente com esses comerciantes. Eles compram o peixe da mão da gente”, relembra Edson de Souza, que continua na atividade de manejador.

Pirarucu gera feira e gira economia na floresta Para incentivar ainda mais a comercialização dos pirarucus, com intuito de melhorar a geração de renda dos manejadores, a FAS começou a promover feiras de pirarucus em Manaus, capital amazonense.

Conforme relatos de Edvaldo Corrêa, as feiras começaram a ser realizadas em 2021. Na época, foram promovidas seis feiras, totalizando 30 toneladas de pirarucus comercializados, com valores superiores aos praticados na revenda aos frigoríficos. Com isso, aprimorando cada vez mais o manejador como um empreendedor de pesca, além de gerar lucro às famílias.“ Toda a renda arrecadada com a venda do pirarucu é revertida para as famílias, que participam das ações de manejo. Isso beneficia diretamente o pescador e as comunidades”, comenta o gerente do Programa Floresta em Pé da FAS e coordenador das feiras, Edvaldo Corrêa.

A venda do pirarucu pela FAS conta com o apoio do Ibama, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável de Fonte Boa (IDSFB) e da Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror-AM). A iniciativa é fruto de uma parceria entre a FAS, a Associação dos Moradores e Usuários da RDS Mamirauá Antônio Martins (Amurman) e o Bradesco.

A feira de pirarucu mais recente foi realizada no início de outubro de 2022. Dessa vez, os valores de venda foram de R$ 19 o quilo da manta, R$ 28 o do filé, R$ 14 o da ventrecha e R$ 7 o da carcaça. O evento aconteceu na sede da Fundação Amazônia Sustentável, em Manaus, responsável pela organização. Foram 5 toneladas de peixe vendidos, uma renda revertida às 36 famílias da Comunidade Nova Esperança e da Comunidade Costa da Ilha que participam das atividades orientadas pela instituição.

“Após o manejo, eles começaram a ter expectativa de melhorar sua qualidade de vida por meio da pesca legal. Eles passaram a valorizar um trabalho que já vinham fazendo, porém, agora, eles são pescadores empoderados. Sem contar as melhorias que o manejo provocou no entorno, porque outras espécies também começaram a repovoar. Portanto, a cada ano, os pescadores passaram a enxergar além da ponta da pesca, posicionando-se melhor diante dos empresários e defendendo todo o ecossistema que envolve o ambiente do pirarucu”, comenta Edvaldo, que enfatiza: “A missão da FAS é isso, ensinar os pescadores a

não vender pirarucu por vender, mas a comercializar de verdade. A nova realidade proporciona bem-estar a eles mesmos, valorizando o seu trabalho e ajudando a manter a floresta em pé”.

Manejo de pirarucu recebe reconhecimento internacional

O biólogo paulista João Campos Silva foi premiado pela Rolex, empresa suíça de relógios de luxo, em 2019, pela implementação do manejo do pirarucu na região do Rio Juruá, no interior do Estado do Amazonas. João Campos Silva demonstrou que o pirarucu pode ser salvo com uma ação no Rio Juruá, no oeste da Amazônia, que foi o fechamento de pequenos lagos conectados aos rios, associado ao manejo dos estoques de peixes pela população local. As medidas resultaram em uma recuperação da espécie, multiplicando por 30 o número de pirarucus.

Essa recuperação melhorou significativamente a pesca. Agora, cada lago gera em média R$ 45 mil de renda anual extra para as comunidades locais. Além disso, o resultado do projeto contribuiu para a criação de escolas, o atendimento médico e os empregos. A percepção da mudança na vida daquelas pessoas fez com que as comunidades participassem cada vez mais.

“As comunidades locais têm contribuído para o restabelecimento do maior peixe de escamas do planeta”, contou o biólogo, considerando que “salvar o Arapaima da extinção constitui também um antídoto contra a pobreza”.

João Campos Silva começou a estudar as dinâmicas ecológica, populacional e de deslocamento dos peixes gigantes em toda a região, implantando microchips e monitorando 30 indivíduos por ondas de rádio. Além do pirarucu, com o fechamento dos lagos à caça e à pesca, o projeto trouxe de volta outras espécies ameaçadas na região, dentre as quais o peixe-boi, a ariranha, a tartaruga-da-amazônia e o jacaré-açu. “Acredito que o manejo comunitário do pirarucu é o instrumento mais poderoso que temos para garantir um futuro sustentável para as várzeas amazônicas”.

A origem do resgate do pirarucu

Atualmente, segundo o Instituto Mamirauá, mais de 200 organizações trabalham com o manejo de pirarucu no estado do Amazonas, oferecendo assessoria e auxiliando grupos de manejadores em setores diferentes, seja na Reserva de Mamirauá ou em outras localidades da floresta. É a união de profissionais e pescadores por um só propósito: proteger a espécie e a própria família, já que vivem do pirarucu.

Antes de essa iniciativa se propagar, o órgão pioneiro a implementar o manejo de pirarucu nas ati­vidades de pesca na Amazônia foi o Instituto Mamirauá, que iniciou com um projeto piloto na comunidade de São Raimundo, no setor de Jaruá, na Reserva de Mamirauá, em 1998, época em que o Arapaima gigas estava desaparecendo das águas.

“Comercialmente, a pesca de pirarucu já estava proibida desde 1996, fruto de duas legislações do Ibama estabelecendo os períodos possíveis na região Norte do País, contudo, o estado do Amazonas era o único restrito o ano inteiro. Então, do período de 1996 até 1999, quando a pesca havia sido proibida, o Instituto Mamirauá iniciou uma série de estudos e pesquisas para chegar a uma proposta de uso sustentável como solução para a retomada da exploração comercial daquele povo.

Foi criado, então, um projeto piloto, construído em 1998 para ser executado no ano seguinte, obe­decendo às premissas básicas, que são: respeitar o tamanho e as medidas de adequação do manejo, como a definição de cota de 30%, o monitoramento, entre outras ações”, relembra Ana Cláudia Torres, coorde­nadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá. A coordenadora do programa ainda acrescenta que, no primeiro momento, o projeto chegou a ser inde­ferido pelo Ibama, mas

Ana Cláudia Torres relembra os primeiros desafios no período da implantação do manejo em São Raimundo, começando pela conscientização da população local.
“A primeira grande medida foi estabelecer um pacto com a comunidade sobre a necessidade de suspensão da pesca do pirarucu. Tínhamos que conseguir um compromisso com a comunidade, que precisava suspender a pesca, porque, mesmo com a proibição do Ibama em 1996, a atividade continuava em São Raimundo, bem como em outras regiões.


Então, o nosso argumento para convencê-los era de que os estoques do peixe já estavam escassos, comprovados com os indícios do monitoramento feito pelo Instituto Mamirauá, e nós iríamos apoiá-los na captura de outras espécies, para sanar as necessidades imediatas, enquanto aguardávamos a recuperação do pirarucu. Inclusive, na época, o Instituto Mamirauá criou incentivos econômicos, para apoiá-los na venda de outras espécies, levando essa produção até Manaus, onde era possível obter um preço melhor”, detalha a coordenadora.


Segundo Ana Cláudia Torres, os pescadores de São Raimundo permaneceram de setembro de 1998 até o primeiro semestre de 1999, quase um ano, sem pescar pirarucu, na espera pelo repovoamento da espécie. Nesse período, foram oferecidos vários treinamentos, não somente para a população do setor de Jaruá, mas para que outras comunidades também aprendessem o manejo.


“Sempre tivemos treinamentos sobre o modelo de manejo proposto, englobando cursos sobre as boas práticas de manipulação do pescado. Também oferecemos treinamento para fazer rodar o monitoramento da produção, com o objetivo de assegurar as autorizações de pesca licenciadas pelo Ibama, emitidas anualmente, e liberar as cotas de pesca sustentável. Essas autorizações são viabilizadas apenas após um levantamento do número de espécies, a partir do monitoramento constante por um coletivo de pescadores”, salienta Ana Cláudia Torres.


A coordenadora frisa que não existe pesca individual no manejo de pirarucu. “As autorizações são emitidas em nome de uma associação comunitária ou um grupo, porque a pesca de pirarucu é feita de forma coletiva e distribuída em tarefas, sendo cada equipe incumbida de uma atividade”, relembra a coordenadora,
referindo às fases do monitoramento, da pesca, do transporte, da limpeza e até da venda.


Segundo Ana Cláudia, o órgão trabalha assessorando 12 grupos de manejo de pesca no total, sendo cinco deles na Reserva de Mamirauá, quatro em Amanã e três acordos de pesca. Também há outras instituições de manejo apoiando grupos de pescadores, mas a maioria já passou por alguma capacitação do Instituto Mamirauá no período de implementação da atividade.


Em 2022, de acordo com a coordenadora, somente nesses 12 projetos assessorados pelo Instituto Mamirauá, foram contabilizados, em termos de produção pelos manejadores, mais de 3,5 mil peixes, estimados em torno de 700 toneladas de pirarucu no total. Sobre a população dessa espécie, após a recuperação com o manejo, de acordo com a mais recente contagem desses 12 grupos, são mais de 155 mil pirarucus, entre as fases juvenis e adultos, vivendo nos rios do estado do Amazonas.


Ainda segundo o órgão, desde 1999, a implementação do manejo coletivo ajudou a aumentar em aproximadamente 427% o estoque natural da espécie, além de ter se tornado a principal fonte de renda dos pescadores daquela região. Resultado de uma cooperação mútua e constante, entre o homem e a natureza, comprovando que a “união faz a força”.

Deixe uma resposta