Manejo sustentável recupera a floresta e muda a vida de quilombolas

Na contramão da cultura da sociedade, uma madeireira decidiu trabalhar somente com o manejo florestal, sem agredir a floresta e ainda gerar renda para mais de 2,2 mil famílias. Essa é a história da Benevides Madeiras, no Pará. Além de tomar medidas contra o desmatamento e capacitar moradores, visando ajudar a manter a floresta em pé, a Benevides fortaleceu a economia e a qualidade de vida de famílias que jamais esperavam uma iniciativa como essa.

Surpreendendo as expectativas, por meio do manejo sustentável,a Benevides Madeiras criou o Projeto Aflora no município de Gurupá (PA). Desde 2010, o projeto vem proporcionando capacitação, para gerar renda às famílias locais e atuar a favor da sustentabilidade. Instalado no Estado do Pará, o Projeto Aflora é fruto de uma parceria entre a empresa e as comunidades do entorno.

O projeto conta com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio), além da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Produção. O programa é fiscalizado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), que define em conjunto com a comunidade as áreas a serem manejadas.

Da área estabelecida para o plano de manejo, o projeto estabelece técnicas para minimizar os impactos, como o limite do número de árvores a serem exploradas e o uso de processos mais adequados para a retirada e transporte da madeira. O objetivo é fazer com que a floresta se recomponha rapidamente, contribuindo ainda para o crescimento de novas espécies.

O Projeto Aflora atua em parceria com o grupo Hadex, a Associação das Comunidades Remanescen­tes de Quilombos de Gurupá (ARQMG) e a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará, a Malungu. A iniciativa ainda fomenta uma parceria econômica que destina parte da receita gerada à comunidade e a outra parcela à empresa. A Benevides também canaliza 5% a projetos de desenvolvimento econômico e de infraestrutura de interesse direto da comunidade local. A cidade de Gurupá recebeu uma série de melhorias, como água encanada, poço artesiano, energia elétrica, escolas, posto de saúde, ambulância com maca e oxigênio e a construção de mais de 300 km de estrada, dando acesso à cidade, o que antes só era possível pelo rio.

Todo esse desenvolvimento na pequena Gurupá na Amazônia somente foi possível após a mobili­zação da comunidade, em busca do progresso em paralelo à conservação da floresta. Era o início de um extenso processo de conscientização, que partiu da família dos proprietários da Benevides, até convencer os próprios moradores locais e de todos que conheceram o projeto.

De serraria ao exemplo como produtora florestal

A história da Benevides começou por meio do trabalho do avô Arnaldo Betzel, que já trabalhava com ma­deira no Espírito Santo na década de 70. Todavia, na época, ele trabalhava ainda de maneira rústica, utilizando ma­chado e carregando o caminhão manualmente. Arnaldo Betzel abriu a sua primeira serraria na região sul da Bahia.

No entanto, alguns amigos de Arnaldo que haviam se instalado em Paragominas, no Pará, acabaram fazendo com que ele se mudasse para o município paraense devido às chances de melhores condições eco­nômicas. Assim, desmontou a serraria e seguiu com a família em cima de um caminhão para Paragominas. Chegando ao Pará, na década de 80, montou a nova serraria, criando o primeiro grande negócio da família.

Em 1999, Arnaldo mudou-se para Belém, onde fundou a Benevides Madeiras em sociedade com o seu irmão José Betzel. A princípio, a família comprava apenas a madeira pronta, ou seja, adquiria a tora e a transformava em madeira serrada. Em 2010, já sob a gestão do irmão, além da serraria, a família decidiu entrar no ramo do manejo florestal, investindo em maquinário e iniciando as primeiras conversas com as comunidades quilombolas em Gurupá.

“O setor de madeiras sempre foi difamado. Por isso, a nossa primeira mudança de rota de serraria para uma produtora florestal com manejo sustentável surgiu com a crescente demanda do setor, que é o fornecimento de matéria-prima legal e constante. Precisávamos conseguir recursos corretamente, para manter a empresa funcionando de forma regular. Foi com esse sentimento de não só obter o material, mas de maneira correta e legal, que necessitávamos expandir com segurança e passar a ser não somente um comprador, e sim um produtor florestal”, justifica Gustavo Betzel, presidente da Benevides e neto do fundador, que assumiu o comando da empresa em agosto de 2014.

Segundo Gustavo, além da dificuldade em obter matéria-prima de forma legal, outra restrição para manter a empresa operando corretamente era a regularização fundiária, um quesito que os quilombolas atendiam, mas não conheciam o potencial de suas terras.

“Nosso outro gargalo como madeireira era ter uma área legalmente para a produção florestal. Logo, por meio de indicações locais, descobrimos que a Associação das Comunidades Remanescentes de Qui­lombos de Gurupá possuía um título documentado pelo governo estadual, afirmando que a terra era de propriedade deles. Desse modo, procuramos por esses quilombolas que tinham a terra regularizada e 30 OS CAMINHOS DA AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL

viviam para a subsistência. Explicamos para eles que era possível transformar essa terra em renda própria, porém, de forma sustentável. Assim, iniciamos o projeto do manejo florestal, o Aflora”, conta Gustavo.

Ele frisa que o projeto todo foi documentado em nome da comunidade, incluindo a informação de quanto eles ganhariam pelo trabalho no local. “Não fizemos nada em nome da empresa. Celebramos um contrato de parceria, em que a comunidade ficou ciente dos valores a serem recebidos, autorizando o uso da terra e fornecendo mão de obra remunerada. Em contrapartida, nós entramos com a parte técnica, oferecendo capacitação para o manejo sustentável, engenharia e maquinário. Resumindo, eles tinham o que procurávamos, que era a terra, e nós assumimos a responsabilidade de executar o manejo florestal naquele espaço, contratando-os para trabalhar”, explicou Gustavo.

No início, segundo Gustavo Betzel, a maior dificuldade do Projeto Aflora foi a conscientização dos próprios moradores, que não tinham noção da importância de conservar a floresta. “Na época, eles só pensavam no dinheiro, alguns não manifestaram interesse em trabalhar com o manejo. Como eles pas­savam necessidade, apenas queriam saber quanto iriam ganhar. Não buscavam entender como seria para manter a floresta e tiveram muita resistência, por isso, foram mais de 2 anos de convencimento para a comunidade aceitar, de 2009 até o verão de 2011”, relata.

Com essa experiência, ele destaca que é preciso desenvolver um trabalho socioeconômico em todas as regiões da Amazônia, para alcançar a meta que todos querem: proteger a floresta. “Essa situação econômica e ambiental é um problema estrutural na região. Portanto, enquanto não resolvermos a questão financeira das pessoas que vivem na Amazônia, não adianta falarmos ou fazermos campanhas de proteção à floresta. Sem meios de subsistência, ou eles vão destruir o que está na floresta para sobreviver, ou eles passarão fome. E é o que acontece na realidade”, pontua Gustavo, frisando que o manejo foi uma alternativa de sobrevivência para as comunidades locais não somente como geração de renda, mas também para preservar o bioma amazônico.

Nos dias atuais, dos 500 funcionários da Benevides, 180 estão trabalhando com o manejo florestal, incluindo somente os empregos diretos, sem contar com os terceirizados. Ao todo, já são 21 comunidades, ou seja, 21 associações locais, totalizando mais de 2,2 mil famílias envolvidas com o manejo florestal, que se tornou exemplo para outras regiões.

“Essa parceria firmada entre a Benevides e a ARQMG tornou-se um ‘case de sucesso’ na região, e outras comunidades também quiseram participar. Isso aconteceu porque soubemos entender a diferença de gerar emprego na cidade e gerar oportunidade em uma região afastada de tudo. Nós conseguimos ge­rar recurso em uma área isolada e, ao mesmo tempo, preservar a floresta. Isso é de tamanha importância para eles e para nós. Pois, a partir desse trabalho com as comunidades, além da geração de renda, são 360 mil hectares manejados e protegidos de forma correta, respeitando o ciclo da floresta”, salienta Gustavo.

Desde 2009, início do Projeto Aflora, até o momento, a empresa já investiu R$ 90 milhões entre renda e melhorias nas comunidades, voltados diretamente para os moradores. Em relação à renda gerada para cada família por meio do manejo, a parceria contabiliza em média R$ 2 mil por hectare. “Sem derrubar a floresta, conseguimos gerar uma renda para eles maior até que o arrendamento de terra para soja. Portanto, nós podemos não ser a so­lução que todos esperam, mas fazemos parte dessa solução que vivemos, que consiste em resolver o problema so­cioeconômico daquelas famílias que habitam na Amazônia, ajudando a manter a floresta em pé”, enfatiza Gustavo.

“Se até a minha família demorou a acreditar que era possível retirar madeira sem destruir a floresta e ainda protegê-la com esse trabalho, imaginem, então, as outras pessoas que acompanham a cultura de

toda uma sociedade? Só acreditam vendo com os próprios olhos e verão que é verdade”. É o que diz a en­genheira florestal Ana Lúcia Vilhena Muniz, que desde 2008 trabalha na Benevides com o manejo florestal que deu origem ao Projeto Aflora.

A engenheira florestal revela um sentimento que todos possuem referente a um trabalho que não co­nhecem, mas que “é igual a caviar, só ouviram falar”. Para o convencimento das comunidades no Pará, para a sua família e você que está lendo essa história, Ana Lúcia Muniz detalha como é feito o manejo sustentável na Floresta Amazônica, projeto que se tornou referência para outras regiões a partir da iniciativa da Benevides.

“Há uma diferença grande entre supressão e desmatamento. A supressão é o corte legalmente autoriza­do, de acordo com cada área. Já o desmatamento é a retirada de árvore sem avisar ninguém, sem controle ne­nhum. Na primeira, cada propriedade tem sua porcentagem, e, na Amazônia, você só pode extrair e converter 20% daquela área, sendo necessário deixar 80% para o plano de manejo, além de manter a floresta em pé. De­pois de ser estipulada essa área de 80%, chamada de Unidade de Manejo Florestal (UMF), ela pode ser dividida em áreas menores denominadas Unidades de Produção Ambiental (UPAs), formando ciclos entre 25 e 30 anos.

Conforme a intensidade de corte, podemos fazer esse ciclo para propiciar o processo de regenera­ção. Ou seja, só voltaremos naquela área 25 ou 30 anos depois, para que a floresta consiga se recompor”, esclarece Ana Lúcia.

Entretanto, antes dessa decisão de tempo de corte, segundo a engenheira florestal, é feito um le­vantamento de dados chamado inventário florestal, referente à área estabelecida como UMF. Esse inven­tário é um documento que reúne todas as informações a respeito das espécies existentes naquela área. Dessa forma, é possível identificar quais árvores poderão ser cortadas no intervalo de 25 ou 30 anos e aquelas que permanecerão intactas.

“Pela legislação, após o inventário com todos os indivíduos arbóreos relacionados, vamos separar as árvores a partir de 60 cm de diâmetro, que são as únicas permitidas para corte. Também só retiramos as espécies que realmente serão comercializadas, dependendo da demanda do mercado na ocasião. Além disso, podemos extrair apenas 29 m³ por hectare, e, desses, somente as espécies que não estão em situa­ção vulnerável e que realmente têm valor comercial no mercado”, pontua Ana Lúcia .

Conforme a engenheira, as espécies mais comuns de serem comercializadas são angelins, ypês, pa­rajubas e maçarandubas, com a autorização da associação quilombola local. “Dessas espécies que serão retiradas, nós temos que preservar ainda 10% em pé naquela área, para garantir o próximo ciclo. Já aquelas que estão vulneráveis, ou seja, na lista de risco de extinção, como é o caso do ypê, devemos deixar 15% lá. Mas tudo é proporcional de acordo com a área, respeitando-se as características de cada espécie. O inven­tário é que vai apontar se você tem que deixar de 10 a 200 espécies intactas em cada área de manejo. Lem­brando que após extrairmos apenas o percentual que é permitido, só voltaremos ao local 25 anos depois”.

A engenheira florestal enfatiza que a recomposição da área acontece entre os ciclos com a ajuda do ecossistema e, pasmem, da luz do sol que surge da própria retirada da árvore. A floresta tem a sua dinâmi­ca. O piso florestal é cheio de sementes o tempo inteiro devido ao biossistema. No entanto, quando uma área de manejo registra a retirada de árvores, a luminosidade proveniente da energia solar contribui para o despontamento daquelas sementes dormentes.

Isto é, o manejo acaba ajudando na regeneração de muitas espécies no ciclo natural da floresta. De­pois de 1 ano, você pode voltar na mesma área que já não consegue mais entrar de tantas novas espécies,

visto que nesse intervalo a área já se recuperou em virtude do rápido crescimento dessas plantas”, explica, relembrando que aquela área só poderá ser manejada novamente, no mínimo, 25 anos depois.

No que diz respeito aos desafios da compreensão do manejo florestal tanto na Amazônia quanto na sociedade em geral, Ana Lúcia Muniz deixa uma mensagem:

— É cultural o fato de as pessoas pensarem que o manejo representa desmatamento. Manejo flo­restal é planejamento e é sustentável. É preciso mostrar que dá certo, tem resultado, apontar uma área totalmente regenerada cinco anos depois, porém, tudo isso exige muita técnica e orientação.

Nós já flagramos, por inúmeras vezes, moradores da comunidade retirando árvores, ou seja, desma­tando. E, depois dessa orientação e capacitação com os quilombolas, são eles que nos ajudam a monitorar as áreas e protegê-las do desmatamento. Podemos dizer que uma região onde acontecem atividades de manejo corre menos risco de ser invadida, porque essa proteção vem dos próprios quilombolas que enten­deram os benefícios do mecanismo e a importância da floresta na vida deles – afirma a engenheira florestal.

Os gestores que viraram irmãos

Antes de a Benevides implantar o projeto de manejo florestal no município de Gurupá e nas comuni­dades dos arredores, a região já tinha os seus proprietários legais da terra e da cultura local: os quilombo­las, em sua maioria, descendentes de negros e índios.

As primeiras conversas da empresa com os quilombolas aconteceram entre 2008 e 2009, em uma vila em Gurupá, na comunidade de Maria Ribeira, onde viviam cerca de 70 famílias na época. A primeira visita ocorreu nessa localidade, que é coordenada pela Associação das Comunidades Remanescentes de Quilom­bos de Gurupá, cujo presidente é o senhor Francisco Ramos Muniz, 61 anos, mais conhecido como Sr. Chico.

“Quando conhecemos os Srs. Mauro e Arnaldo da Benevides, começamos a discutir o projeto flo­restal. Passamos a ideia para os conselheiros da ARQMG e, na época, de 11 comunidades somente três aceitaram participar do projeto. As primeiras foram a de Jocojó, São Francisco do Alto Cuxuna e Pavilhão da Bênção do Alto Cucuriú. A maioria pensava que eles não iam pagar a gente, que queriam roubar. Con­tudo, depois que viram as coisas dando certo para essas três comunidades, daí, a cada ano, entravam pelo menos duas no projeto florestal”, conta o Sr. Chico.

Mauro Roberto do Vale Martins, mencionado pelo Sr. Chico, é o coordenador de projetos com comunidades da Benevides. Ele foi o responsável por fazer os primeiros contatos com as comunidades quilombolas. De acordo com o coordenador, o convencimento de que queriam oferecer trabalho sem prejudicar a floresta foi desafiador.

“O começo foi muito difícil, foram dois anos conversando e tentando explicar que não íamos des­truir, e sim colaborar. Ajudamos de diversas maneiras, desde cestas básicas a disponibilizar trator para eles trabalharem, e a máquina ficava largada lá. Oferecíamos toda a estrutura para o trabalho remunerado com o manejo, porém, mesmo assim, muitos ainda tinham o pensamento tradicional e não acreditavam no pro­jeto. Depois, passamos a oferecer também cursos gratuitos para quem quisesse trabalhar e, aos poucos, fomos integrando a comunidade com a empresa. Os técnicos ensinaram aos quilombolas como fazer o cor­te do manejo e um inventário florestal. No decorrer do tempo, fomos transformando a mentalidade deles e abrindo espaço para o novo, que era a qualidade de vida por meio de um trabalho legal e reconhecido, com conscientização ambiental”, discorre Mauro Martins.

O coordenador lembra ainda que a Benevides estabeleceu parceria com a Universidade Federal

da Amazônia, de Paragominas, levando universitários, para executarem o trabalho de campo nas áreas de propriedade da empresa. Com isso, os estudantes auxiliavam os quilombolas sobre a preservação ambiental.

Essa capacitação foi mudando a visão das comunidades quilombolas.

Para o professor pedagogo Nivaldo dos Santos Nascimento, 51 anos, que é remanescente quilombola da comunidade de Santo Antônio do Cambutá do Rio Pixuna, também em Gurupá, o projeto de manejo sempre foi executado em conformidade com a legislação e com bastante investimento por parte da empresa, além da formação técnica em parceria com as comunidades, fatores que motivaram as famílias que vivem nelas.

“Foram vários investimentos da empresa em diversas áreas, como saúde, educação, não somente ambiental. Na época, houve até denúncias de alguns órgãos por ser uma madeireira, porém, como não há nenhuma irregularidade, o projeto prosseguiu por esses anos todos e está firme até hoje. Atualmente, graças ao u,, refleteo professor

Nivaldo Nascimento é conselheiro executivo da ARQMG, presidente da Associação da Vila Cantagalo e mem­bro da comunidade de Rio Pixuna. Atua como professor e sindicalista na defesa dos remanescentes de quilombos. Sempre defensor das comunidades quilombolas, foi também vereador por 20 anos no município de Gurupá.

O professor ainda expõe que, além da mudança na economia das famílias, houve a recuperação das primei­ras Unidades de Produção Florestal, áreas pioneiras do projeto de manejo: “Hoje, as primeiras UPAs, onde come­çamos o projeto, estão irreconhecíveis, não dá nem para perceber que houve retirada lá. Todas já estão totalmen­te restabelecidas. Portanto, nós vimos na prática que a floresta se recupera novamente após o manejo”, salienta.

O Sr. Chico, que teve as primeiras conversas com a Benevides e precisou convencer os conselheiros quilombolas sobre a eficácia do projeto, também reconhece a evolução das famílias, inclusive a dele. “Esse projeto ajudou muito a minha família e de todas as comunidades vizinhas. Os moradores daqui conseguiram comprar casas na cidade, alguns têm carro ou moto, mas antes não tinham nada. E o que deixou muito resultado foi a qualificação para essas pessoas. Os meus filhos, por exemplo, são formados, um deles, in­clusive, trabalha com GPS. A ajuda veio desde a educação até a saúde”, resume o Sr. Chico.

Ele ainda revela as novas conversas da ARQMG com a Benevides. “Adiantando, nós agora estamos traba­lhando em um projeto de carbono dentro dos 83 mil hectares, uma negociação já da nossa diretoria com a Be­nevides. Agora, a visão não é pensando nos adultos, e sim no futuro das nossas crianças. Essa parceria virou um projeto de vida, e os Srs. Mauro e Arnaldo da Benevides se tornaram os nossos irmãos. Pela nossa cultura, um irmão é aquele que não te deixa na necessidade, portanto, eles são os nossos irmãos do quilombo”, conclui.

A coleta do açaí pelos rios do Pará

Arnaldo, citado pelo quilombola Chico Muniz de Gurupá, leva os sobrenomes Andrade Betzel. Ele é irmão de Gustavo Betzel, do grupo Benevides e, atualmente, dirige os negócios da marca Goola Açaí. Uma nova atividade que tem relação com os povos da Amazônia.

Após os resultados com o manejo florestal nas comunidades do município de Gurupá e região, a família de produtores florestais enxergou também o potencial do açaí nas regiões ribeirinhas do Pará. O projeto da indústria Goola Açaí começou entre 2015 e 2016 com o plantio de açaí em Acará, município da zona rural pertencente a microrregião de Tomé-Açu, e a instalação da indústria que transforma o açaí em produtos derivados, em Benevides, também no estado paraense.

Em Acará, a empresa não apenas planta os pés do fruto, mas 95% do açaí é adquirido das mãos de

extrativistas ribeirinhos de mais de cinco comunidades daquela localidade, além de outras regiões, tais como: Marajó; Amapá; Alto do Tocantins; Ponta das Pedras, Marajoí, e Cachoeira do Arari. Atualmente, são 450 mil pés plantados pela Goola Açaí. Além disso, vale destacar que a compra do fruto gerou uma nova fonte de geração de renda para mais de 47 famílias naquela região.

“Hoje em dia, você encontra o açaí no mundo inteiro, a demanda cresce mais que a oferta. E essa oferta não aumenta ano a ano. Por isso, nós começamos a comprar das comunidades e continuamos fa­zendo isso. Agora, também investimos no plantio, para termos uma garantia do fruto, oferecendo oficinas com técnicas de plantio para as comunidades. Atualmente, temos mais de 150 hectares plantados, mas adquirimos 95% do nosso açaí com as comunidades ribeirinhas. Isso porque dependemos da natureza, pois o clima e o tempo interferem na colheita. O fruto só dá depois de 3 ou 4 anos da semeadura”, conta Arnaldo Betzel, fundador da Goola Açaí.

Segundo ele, atualmente, a indústria instalada em Benevides fornece açaí para 21 países. Uma de­manda que, de acordo com a empresa, vem crescendo além da oferta e, por isso, é necessário comprar cerca de 20 toneladas por dia dos ribeirinhos.

“Contratamos um barco que vai de comunidade em comunidade pelo rio, comprando as latas de açaí. Cada lata que adquirimos tem uma média de 14 kg do fruto, vendidos, em média, entre R$ 40 e R$ 50 para nós. A empresa gasta diariamente de R$ 50 a R$ 100 mil apenas em compra de frutos das comunidades. Como atuamos desde 2016, o total que investimos adquirindo as latas é muito maior”, frisa o empresário.

De acordo com Arnaldo, essa compra da Goola Açaí gera uma média de R$ 53 mil reais em comercializa­ção por safra para as famílias extrativistas. Atualmente, a indústria compra açaí das seguintes comunidades, além de Acará: Vila Santa Maria I e II; Goiabal; Vila Vinagre; e Vila Jacarequara. Além da aquisição de açaí, a fábrica con­trata mão de obra local, tendo, na atualidade, dez funcionários do entorno ligados às atividades com o açaí. Mais 52 moradores da região foram efetivados em outras atividades da empresa, tais como: pecuária; apicultura etc.

“Além de comprarmos o fruto das comunidades, contratamos algumas dessas pessoas para as ati­vidades da empresa. Também fazemos diversas ações sociais nessas localidades, tais como: oficinas de plantio; atendimentos com dentistas; eventos no Natal; e datas comemorativas, entre outras atividades. Isso é importante para motivar não somente no sentido econômico, mas também promover a qualidade de vida para a população ribeirinha”, complementa.

Do Pará para o mundo

Atualmente, a Goola Açaí é uma marca global com indústria certificada no Brasil e no exterior, confir­mando a qualidade do produto. Alguns dos selos são: British Retail Consortium (BRC), que é uma certifica­ção relacionada à Norma Global de Segurança de Alimentos; e Produto Orgânico. Além de produzir a polpa do fruto, a empresa também fabrica o sorbet (sorvete à base de água, sem leite).

Conforme Gustavo Betzel, aproximadamente 70 a 80% dos produtos são voltados para a exportação.

“Em 2020, montamos as nossas franquias. Até o momento, já estamos nos estados de São Paulo e Minas Gerais, para a revenda dos produtos no País. Fora do Brasil, temos oito lojas em Portugal, nos muni­cípios de Lisboa, Porto, Cascais e Aveiro. Estamos com um programa de expansão e assinamos um contrato para a abertura de mais 150 lojas de produtos de açaí”, comemora .

Sobre a Benevides Madeiras, Gustavo Betzel conta que 60% da produção é comercializada no mer­

cado nacional e 40% direcionados à exportação. De acordo com ele, as madeiras serradas são exportadas para Bélgica, França, Holanda, Estados Unidos, Portugal, Caribe e China.

Manejo florestal vira exemplo em outras regiões

A história do manejo florestal – que desenvolveu a economia e a qualidade de vida das comunidades da pequena Gurupá – está se repetindo em outros municípios do Pará. Em 2016, a Benevides assinou um contrato com o Governo Federal, assumindo a concessão da Floresta Nacional de Caxiuanã, área situada entre os muni­cípios de Portel e Melgaço, no Pará. A empresa ainda abriu uma filial no município de Portel, na região de Marajó.

A nova filial também vem mobilizando as comunidades em geração de emprego, renda e orientação para as famílias do município que, segundo Gustavo Betzel, vivem em situação de pobreza, afetando, em especial, as crianças.

“Nós estamos auxiliando as associações da cidade em diversas frentes, dando atenção especial às crianças. Em relação ao manejo florestal, já implantamos um projeto na comunidade de Acangatá – que não é formada por quilombolas, mas, sim, ribeirinhos –, onde estamos construindo a mesma história que fizemos em Gurupá. Erguemos um posto de saúde e o doamos para a associação. A unidade está sob a administração da Prefeitura. Instalamos também energia e água encanada, enfim, toda a estrutura básica necessária, como foi feito nas comunidades quilombolas”, acrescenta.

Conforme Gustavo Betzel, a Benevides foi responsável pela construção de um posto de saúde em Porto de Mós, no Pará, que abrange a RESEX Verde Para Sempre, uma reserva extrativista de 1.289.362,78 hectares. “Nessa reserva, existem algumas comunidades, sendo uma delas a Arurubar, onde construímos posto de saúde, compramos uma ambulância e abrimos poço artesiano. Ainda doamos tratores, para que pudessem trabalhar na agricultura. O objetivo é que essa comunidade, bem como as outras onde estamos atuando, também possa se desenvolver, e essas famílias consigam viver com qualidade”, finaliza.

Arte, luxo e história a partir do manejo florestal

“Minha história é resgatar a arte da floresta e juntar com a arte contemporânea, sem desmatar”. Essa declaração é de Etel Carmona, designer autodidata e empresária na fabricação de mobiliários, sendo sua empresa certificada pelo Forest Stewardship Council® – FSC®, reconhecida entidade que monitora o manejo florestal sustentável. Ela foi pioneira em incentivar a compra de madeira proveniente do manejo e a primeira movelaria certificada pelo selo em 2002.

A designer de mobília de luxo, que andou até de mula na Amazônia, mobilizou seringueiros a se ca­pacitarem no manejo florestal como geração de renda e conservação do bioma.

Antes de se tornar símbolo do design com madeira certificada, Etel iniciou sua trajetória profissional na década de 80, restaurando peças de época em seu sítio no interior de São Paulo.

Em 1985, fundou a ETEL, empresa destinada à fabricação de mobiliário assinado por renomados designers e artistas. A empresa tornou-se responsável pela maior fração de reedições certificadas dos mobiliários de grandes mestres modernistas brasileiros.

Em 1998, começou a se envolver em projetos sustentáveis com madeira de manejo florestal na Re­gião Amazônica e, consequentemente, com a capacitação profissional dos povos da floresta. Segundo Etel

Carmona, o convite para incentivar o manejo florestal partiu do Governo do Estado do Acre. Na época, o governo acreano buscava apoio, com o intuito de convencer os seringueiros que o manejo florestal era um mecanismo inteligente e mais rentável do que o desmatamento.

“Quando comecei a produzir, eu queria resgatar a arte da floresta e trazê-la para a arte contem­porânea. Comecei uma história com a floresta e o social em Xapuri, interior do Acre. Lá, o governador do Acre possuía um projeto, em parceria com o FSC® (Forest Stewardship Council®) – Conselho de Manejo Florestal, que era de convencer os seringueiros a fazerem o manejo, precisavam deixar de desmatar. Meu compromisso no projeto era qualificar esses seringueiros como marceneiros e comprar a madeira deles, para incentivar o manejo florestal”, explica Etel.

No desafio de conscientizar os seringueiros de Xapuri a não desmatarem a floresta, Etel engajou-se de perto no projeto, visando motivar a comunidade. Ao lado de engenheiros florestais, a designer acompa­nhou as oficinas de manejo montada em uma mula, no meio da mata amazônica.

“Fui para Xapuri com os engenheiros florestais e os seringueiros, entre uns 25 homens, era somente eu de mulher. Eu seguia montada em uma mula, enquanto todos eles caminhavam. Cheguei, inclusive, a pular um riacho com a mula uma das vezes, e eles brincavam que eu era a deusa da floresta”, lembra Etel, contando que esses percursos eram feitos durante as oficinas práticas de manejo florestal, com o acom­panhamento de técnicos das secretarias estaduais do Acre, em 1998.

De acordo com Etel Carmona, naquela época, eram cerca de 30 a 40 famílias de seringueiros que começaram a trabalhar com o manejo florestal em Xapuri.

Móveis sustentáveis com a arte da natureza

Ainda adquirindo madeira proveniente de manejo florestal, Etel Carmona disse ter diversificado seu material com outros organismos além do FSC®, porém, todas as madeiras são rastreadas e certificadas, de fontes legalizadas. Atualmente, a ETEL compra, principalmente, madeira da Orsa Florestal, responsável pelo manejo de 545 mil hectares na Amazônia, onde são aplicadas técnicas de baixo impacto– empresa considerada referência mundial em manejo sustentável.

A Orsa Florestal, inclusive, foi citada como case exemplar pela Organização das Nações Unidas para a Alimen­tação e a Agricultura (FAO). Produz madeira serrada 100% FSC® a partir de mais de 20 espécies nativas comerciais.

Com 180 artesãos capacitados, Etel Carmona relata que a empresa, além de comprar madeira so­mente rastreada e certificada, produz peças a partir do reaproveitamento de sobras.

“Na minha fábrica, não se desperdiça nada, só se perde o berro da lixadeira. Utilizamos até mesmo a serragem, e o que sobra, encaminhamos para uma cooperativa que transforma em adubo para novas espécies florestais”, frisa.

Atualmente, a fábrica da ETEL possui revendedores de móveis artesanais com madeira certificada na Itália, Alemanha, Turquia, Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos.

“Nosso trabalho não é apenas fazer um móvel bonito, mas saber a origem dele, conhecer a história social que aquele material possui e seu objetivo com a sustentabilidade”, enfatiza Carmona, reforçando a importância de preservar o meio ambiente: “

A natureza não se repete, a própria madeira já é uma arte com a sua beleza única. Precisamos mes­mo é colocar em prática ações para preservar sempre. Meu lema é que eu sou movida pelo amor à arte, à natureza e ao homem”.

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