Na busca por um pedaço de terra, um grupo de migrantes que iniciou com cerca de 100 famílias tornou-se uma cooperativa com mais de mil produtores. Pessoas que começaram lutando pelo sustento dos filhos e, nos dias de hoje, são empreendedores a favor da preservação da Floresta Amazônica. Esse é o projeto RECA, que significa Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado. São mais de 2 milhões de quilos de frutos produzidos por ano, diversificados entre cupuaçu, açaí, pupunha, castanha, palmito, andiroba e polpas de frutas variadas. Esse projeto inédito da união de migrantes e agricultores locais gera renda e reflorestamento por meio do plantio consciente no distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho, Rondônia. Um local que estava esquecido e sem perspectivas, antes da chegada de um grupo que acreditou nas terras que existiam ali e nas próprias forças. Em 1984, quando Nova Califórnia (RO) não tinha nem estrada e ainda sofria com os surtos da malária, famílias de agricultores de várias partes do Brasil foram para a Amazônia, em busca de realizar o sonho de ter sua própria terra. Mesmo sem assistência do governo, o desafio era não só conquistar espaço, mas conseguir fontes de renda, para sobreviver no meio da floresta. Segundo o RECA, logo no início, os novos moradores aprenderam que as terras ali não eram nada parecidas com as do Sul e Sudeste do Brasil: a mata aberta significava sol constante, e a terra secava. Diante das dificuldades, os migrantes notaram que precisavam se unir, para transformar a realidade do local e das famílias que ali se instalaram. Projeto RECA uniu migrantes e seringueiros e reergueu a floresta 14 Fotos: Arquivo Reca Projeto RECA uniu migrantes e seringueiros e reergueu a floresta 15 “Na época, viemos para Rondônia após uma propaganda do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) pelo Governo Federal, como uma campanha para colonizar terras na Amazônia. E, como no Paraná era muito difícil conseguir terra, fizemos a inscrição no programa e viemos no dia 11 de julho de 1984. Eram somente homens para trabalhar, ver como era a terra e, depois, trazer as famílias. Vieram três ônibus de migrantes. No entanto, quando chegamos não tinha nada. Não havia estrada nem a marcação dos lotes. Foi, então, que nos aproximamos dos seringueiros e das famílias que já moravam na região, para nos informarmos sobre as terras e procurarmos por solução juntos”, conta Sérgio Roberto Lopes, 62 anos, morador de Nova Califórnia, agricultor e um dos fundadores do projeto RECA. Segundo Sérgio Lopes, o início foi de muitas dificuldades, pois, além da adaptação ao clima e das condições das terras, era a época da malária na Amazônia: “Estavam todos sem perspectivas. A doença se espalhava, vários desistiram, outros morreram com malária. Ainda tinha o problema com as estradas, que, de tão intransitável, porque atolava, ficavam fechadas muitas vezes. Por isso, nós nos unimos aos moradores locais e começamos a discutir soluções para gerar renda e permanecer nas terras. Na época, falava-se muito das castanheiras da Reserva de Chico Mendes, no Acre; daí, passamos a estudar opções para tentar plantar. Inicialmente, ainda na década de 80, quem nos apoiou foi a Diocese de Rio Branco, por intermédio do Dom Moacir Grecchi, que acreditou na nossa proposta e fez o financiamento para começarmos o projeto”, lembra Lopes. Com a união dos migrantes aos habitantes antigos da região, seringueiros e agricultores, o grupo planejou alternativas que respeitassem o clima e a forma de vida de quem já estava naquelas terras. Juntaram- -se os conhecimentos de organização e a cooperação das famílias vindas de outros estados à sabedoria regional sobre a floresta. Desse modo, começaram a elaborar um projeto para a implantação de Sistemas Agroflorestais, os SAFs, com o uso de plantas nativas e bem típicas da região, que dão bons frutos. A partir dessa aliança, em 1989, foi fundada oficialmente a organização social chamada RECA – Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado. Mil famílias, de todas as regiões A produção em sintonia com a floresta fez o RECA multiplicar-se, tornando-se uma cooperativa que atende direta e indiretamente mais de mil famílias, não somente com a comercialização de produtos, mas com cursos, capacitações, intercâmbios, estágios, parcerias com universidades, geração de emprego e renda, entre outros benefícios. O projeto é formado, atualmente, por 40% dos agricultores do local e 60% vindos de outras regiões do Brasil, sendo uma mistura de todas elas. Ao longo dos anos, o crescimento foi tanto, que o projeto dividiu as atividades em dez grupos de cooperados, para facilitar os atendimentos e a participação de todos. “A divisão entre os grupos foi feita por distanciamento da sede do RECA. Temos uma reunião mensal de diretoria e outra mensal em cada grupo. Desse jeito, facilita mais, tudo o que se passa na diretoria é avisado aos grupos de um em um, que, por sua vez, também discutem suas pautas e repassam para a diretoria”, explica o atual diretor-presidente do RECA, Hamilton Oliveira, que é natural de Paraty, Rio de Janeiro, mas está no distrito de Nova Califórnia desde o início do projeto. Segundo Hamilton Oliveira, o RECA tem uma equipe técnica que atende as demandas dos produtores, orientando esses grupos. A maioria dessa equipe que auxilia os produtores é composta por técnicos em Agropecuária, formados nas Escolas Familiares Agrícolas (EFAS), que são instituições que atuam com base na pedagogia da alternância, uma atividade que ainda precisa de mais colaboradores. “O trabalho das 16 OS CAMINHOS DA AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL equipes técnicas ainda não é suficiente para suprir todas as demandas, uma vez que cada técnico atende a uma atividade específica dentro do RECA, por exemplo: um para certificação orgânica, um para o projeto de carbono, outro para o trabalho de compostagem etc”, explica o presidente. Agricultura familiar vira formação e é repassada por gerações Em sua maioria, os técnicos que orientam as famílias cooperadas ao RECA são ex-alunos da Escola Estadual Rural Familiar Agrícola Jean Pierre Minga, instituição local que leva o nome de um ex-padre que também ajudou na fundação do projeto. A unidade de ensino começou a ser discutida entre os moradores em 1992, entretanto, só passou a funcionar efetivamente em 2011. Na atualidade, possui 60 alunos, todos filhos de produtores da região que estudam em um formato semelhante ao regime de internato, conhecido como a metodologia de alternância de Paulo Freire, baseada na divisão do tempo entre a teoria e a prática. Nessa concepção implementada por colaboradores do RECA, os alunos ficam 15 dias morando na escola, tendo atividades de agricultura, e, após esse período, voltam para a casa com tarefas do curso integrado a serem desenvolvidas na terra da família e na comunidade. Os alunos saem de lá com o curso técnico integrado concluído, isto é, formados no Ensino Médio com a especialização de técnico em Agrícola. A maioria dos professores da escola também são ex-alunos treinados para essa modalidade de ensino. Além da escola, o projeto implantou uma farmácia alternativa, que, em parceria com a paróquia local e a comunidade, produz remédios naturais a preços simbólicos para quem vive na região. Grande parte das famílias depende 100% da organização RECA, pois gera renda a partir da comercialização dos frutos. Todavia, já existem vários agricultores em Nova Califórnia que também têm suas rendas de outras atividades sem a participação direta do RECA, mas que o projeto apoia. Segundo Sérgio Lopes, um dos fundadores do projeto, a princípio, as famílias não recebiam sequer meio salário mínimo. Após o desenvolvimento do projeto, a média de renda entre os agricultores passou a ser de até quatro salários mínimos. “Agora, o RECA comercializa para grandes empresas, como a Natura, e redes de atacadistas. Nós vendemos sacas de 10 kg e carretas de 30 t (toneladas) de frutas, além dos óleos que são vendidos em baldes, todos são comercializados em diversas localidades do Brasil, como São Paulo, Acre, Rondônia e Paraná. Já o palmito é vendido a varejo, inclusive, com rótulo, embalagem com a marca do RECA”, detalha Sergio Roberto Lopes. Daniel Berkembrock, 58 anos, que é descendente de alemão e natural de Blumenau, em Santa Catarina, começou a trabalhar no distrito de Nova Califórnia, em 1986, e mudou-se com a família em 1990. Sua nova vida teve início em um pequeno barraco no lote que adquiriu e, depois das vendas dos frutos que cultiva e são comercializados pelo RECA, conseguiu comprar mais terras na região. “Começamos a plantar mandioca, depois cupuaçu, castanha, pupunha para semente, palmito, andiroba e açaí. Eu entrego uma certa quantidade para o RECA, e eles pagam a gente. Com isso, já comprei mais terra, reformei minha casa, adquiri um carro e máquinas agrícolas para o trabalho. Minhas filhas e esposa me auxiliam no plantio. Vimos que o projeto nos ajudou a sair da miséria e a evoluir muito”, relata o catarinense, que diz receber, nos dias de hoje, uma média de quatro a cinco salários mínimos apenas com a comercialização para o RECA, sem contar as produções independentes. Atualmente, segundo dados do RECA, a cooperativa produz em média por ano: 1.235.626,00 kg de cupuaçu; 41.856,00 kg de manteiga de cupuaçu; 16.298,00 kg de óleo de castanha; 163.752,00 kg de hastes de pupunha; 117.254,00 kg de frutos de açaí; e 39.674,10 kg de palmito, entre outras polpas e frutos diversificados. Projeto RECA uniu migrantes e seringueiros e reergueu a floresta 17 Os benefícios para a floresta A história da união de migrantes, agricultores locais e profissionais de todas as áreas, para garantir terra e gerar renda, também tinha outro propósito: proteger o maior bioma do Brasil. A Floresta Amazônica também ganhou com a implantação do RECA. Desde o início, o projeto adotou como parâmetros de produção dos Sistemas Agroflorestais, os SAFs, que consistem em ter variedades de culturas e fonte de renda em uma mesma área. Apenas o RECA alcançou mais de mil hectares de plantio consciente, que equivalem a mais de 1,1 mil campos de futebol. Além do respeito à floresta, o RECA dá colheita durante todo o ano. Nos SAFs do RECA, estão consorciadas mais de 40 espécies frutíferas e madeireiras, assim como medicinais. As práticas adotadas diariamente constituem os princípios da agroecologia – cada família possui sua composteira, e o manejo das áreas é executado por meio dos mutirões, que contam com a contribuição dos membros do grupo da área coordenada. Conforme o técnico agrícola Dielison Furtunato de Souza, 25 anos, formado na escola do projeto e que é um dos responsáveis por atender e orientar as famílias cooperadas, na atualidade, o RECA possui 264 produtores divididos em nove grupos. Essas equipes são caracterizadas por ramais, que correspondem às localidades com os plantios: “Nesses grupos, damos orientações para a semeadura de forma correta, para que o RECA diminua a taxa de desmatamento das propriedades, comparada ao índice comum da região. Daí, o propósito do Projeto Carbono”, acrescenta de Souza. Ademais, o RECA promove a certificação orgânica de toda a cadeia produtiva da cooperativa, ou seja, um selo que atesta a integridade e a rastreabilidade da origem do produto como forma de respaldar a produção. A medida também faz com que as famílias de agricultores cumpram o Código Florestal. Projetos de Carbono e Certificação Orgânica Das mil famílias cooperadas ao RECA, 30 trabalham com suas propriedades com certificação internacional de preservação florestal. O projeto de certificação orgânica implementado pelo RECA viabiliza um selo, que é concedido pelo Instituto Biodinâmico (IBD), para aqueles produtores que seguem as diretrizes de agricultura biológica, cumprindo legislações e respeitando o Código Florestal. A técnica em Agropecuária do RECA, Taysa Faltz Macedo, 27 anos, revela como funciona o procedimento. “Dentro desse grupo de 30 produtores do projeto de certificação orgânica, há um sistema de controle interno que são os profissionais que fazem auditoria uma vez ao ano, para identificar se existe alguma inconformidade com as formas de trabalho. E, duas vezes ao ano, o IBD, certificadora de produtos orgânicos que nos vistoria, realiza uma auditoria externa sobre o próprio sistema de controle interno”, esclarece Taysa Macedo. Ela ainda complementa: “Nós temos três certificações do IBD: a dos plantios como orgânicos; por extrativismo, que é da floresta; e a certificação de processamento, ou seja, de toda a cadeia produtiva”, afirma Taysa, enfatizando que a certificação orgânica pelo RECA é internacional, sendo válida para o Brasil, os Estados Unidos e a Europa. Além da certificação orgânica que monitora os agricultores, o RECA possui o Projeto Carbono, orientado pelo técnico responsável Dielison de Souza. Ele contou que o projeto foi idealizado em 2013, quando seguiram a iniciativa da Natura, uma das empresas para a qual a cooperativa fornece, que lançou o Programa Carbono Neutro, com a finalidade de incentivar a redução de desmatamento na floresta e, consequentemente, a emissão de gases do efeito estufa. “Como fornecedores da empresa de cosméticos, vimos a necessidade de também contribuir para 18 OS CAMINHOS DA AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL o mesmo objetivo. Ou seja, o propósito era que o índice de desmatamento das propriedades do RECA fosse menor que a taxa comum na região. Para isso, os produtores que aderissem à ideia também eram bonificados. E foi o que começamos a atingir. Atualmente, as áreas que não fazem parte do RECA registrou uma taxa de 5,4% de desmatamento, enquanto isso, as propriedades que integram o projeto foi de apenas 0,8%”, destaca o técnico responsável Dielison, detalhando como funciona o Projeto de Pagamento por Serviços Ambientais de Carbono Florestal (PSA), em pequenas propriedades e comunidades da Amazônia. Ainda de acordo com Dielison de Souza, os Sistemas Agroflorestais do RECA possuem reflorestamento contínuo e têm durabilidade que varia de 1 a mais de 20 anos, dependendo da classe do plantio (tipo de fruto) de cada propriedade dos agricultores cooperados. O técnico citou como exemplo a propriedade do agricultor e um dos fundadores da cooperativa, Sérgio Lopes, que possui 34 anos desde o início do projeto e ainda com alta produtividade. Conforme levantamento do RECA, a quantidade de plantio de cupuaçu, por exemplo, desde 1982, é de 139.550 árvores plantadas. Além disso, os números são bastante expressivos para os plantios de pupunha, palmito, copaíba, andiroba, açaí, castanha, graviola e outras espécies que possuem SAFs espalhadas desde 1982, na região de Nova Califórnia. Ao ser questionado a respeito do tamanho da compensação ambiental do RECA na Amazônia, Dielison de Souza compara: “Quem dera se tivesse um projeto desse tipo em cada município. É uma organização construída pelos próprios produtores de acordo com a sua realidade. Além da renda, a preservação ambiental vem como mérito. O RECA mostra que é possível ganhar dinheiro, beneficiando o meio ambiente”, conclui. RECA pretende expandir para fora do País Com o sucesso da cooperativa, o RECA virou notícia em diversos veículos de comunicação no País, tornando-se referência para outros projetos de agricultura. Em julho de 2022, a cooperativa marcou presença na Biofach, maior feira de produtos orgânicos do mundo, realizada em Nuremberg, na Alemanha. Na ocasião, o RECA foi assessorado por GIZ, agência de cooperação técnica entre o governo alemão e o brasileiro, que presta consultoria e apoio logístico e gráfico a várias comunidades na Amazônia. O projeto já havia participado do evento na edição de 2020, que contou com aproximadamente 3 mil expositores de mais de 100 países. Segundo o diretor comercial do RECA, Gicarlos Souza de Lima, o objetivo da participação da cooperativa na exposição é conquistar o mercado internacional. “Levamos para a Biofach os nossos produtos que possuem certificação orgânica internacional, principalmente, os óleos de castanha e andiroba e a manteiga do cupuaçu. Como novidades, na busca de integrar o RECA ao mercado global, apresentamos dois produtos que pesquisamos há bastante tempo no Brasil e na Europa, que são o cupuaçu e o açaí liofilizados. Antes, as mercadorias do RECA eram, basicamente, em polpas congeladas”, comenta o diretor. Ainda de acordo com Gicarlos de Lima, a feira proporciona maior visibilidade ao RECA no mercado mundial, fator que motiva os seus cooperados. — Nossa meta é ampliar e destacar mais os produtos, porque quanto maior for a valorização, melhor conseguiremos remunerar os nossos produtores. Isso é necessário, pois estamos vendo um cenário de desvalorização no País devido ao crescimento da cadeia da pecuária na região da Amazônia. Queremos expandir a comercialização das mercadorias orgânicas Brasil afora, como forma de reconhecer e incentivar os produtores do campo. Assim, consolidamos os SAFs não só como uma maneira de gerar renda, mas também de preservar os ecossistemas – finaliza.



