Com mais de 100 trabalhos realizados ao longo de uma década, o coletivo de artistas indígenas Mahku, do Acre, é tema de exposição no Museu de Arte de São Paulo. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, e do curador-assistente Guilherme Giufrida, Mahku: Mirações ocupa o segundo subsolo do Masp com um total de 108 trabalhos, entre desenhos, pinturas e esculturas.
Serpentes, jacarés e outros animais, além dos homens da floresta, fazem parte das histórias contadas pelo Mahku, grupo fundado em 2012 e formado por indígenas do povo Huni Kuin, que vive na fronteira entre o Acre e o Peru. Um dos símbolos do imaginário pictórico do Mahku ganhou destaque na exposição – o imenso jacaré do mito Kapewë Pukeni que, na língua desse povo, significa jacaré-ponte. Diz a lenda que o animal era uma espécie de guardião ou ponte entre os dois continentes que havia quando a Terra estava na era da Pangeia.
“A ideia do grupo é registrar, em plataformas duráveis, os rituais, mitos e cantos desse povo”, revelou ao Estadão Guilherme Giufrida. “Além da questão das pinturas, o coletivo promove em suas exposições obras interativas, murais. Por isso, convidamos o Mahku a ocupar a rampa. Achamos que seria muito forte, nesse início do ano das Histórias Indígenas, abrir com o coletivo que já trabalha com pinturas de instalação em prédios, salas de aula, aeroportos. Enfim, já produziram muitas obras que perduram no tempo, o que é bom, pois contraria a ideia de que a arte é uma mercadoria”, completa.
Mahku é um desdobramento das pesquisas de seu fundador, Ibã Huni Kuin, cognome de Isaías Sales, cacique, xamã e txana (mestre dos cantos) da aldeia Chico Curumim, uma das 34 pertencentes ao povo Huni Kuin, sobre os cantos huni meka, parte musical da cerimônia com nixi pae (a luz do cipó), que é como eles costumam chamar a ayahuasca no próprio idioma. Nos anos 1980, Ibã começa a gravar esses cantos e transcrevê-los para preservar a tradição de seu povo. Seu filho, o artista Bane Huni Kuin começou a desenhar os cantos – segundo ele, era mais fácil decorar as letras e compreendê-los ao transformá-los em imagens, que são pintadas em telas multicoloridas de grandes dimensões.
“A pintura tem para eles o sentido de memorização, de retomar a cultura dos cantos, da ayahuasca, da pintura, que foram ameaçadas com a agressão do ciclo da borracha”, acrescenta Giufrida. Para que o legado seja transmitido às novas gerações, todo o lucro obtido pela venda dos trabalhos é destinado a comprar terra e a ampliar as aldeias dos Huni Kuin, como economia de base indígena que tem erguido escolas e espaços de convivência para o povo.


