Acredito que o manejo comunitário do pirarucu é o instrumento mais poderoso que temos para garantir um futuro sustentável para as várzeas amazônicas”. A frase é do biólogo paulista, João Campos Silva, premiado pela Rolex pela implementação do manejo do pirarucu, na região do rio Juruá, no interior do Estado do Amazonas. O projeto surgiu após a descoberta de Campos-Silva, que é especializado no estudo de peixes, que a pesca predatória, a fragmentação do habitat e os impactos da ação humana dizimaram as populações de pirarucu, quase provocando sua extinção.
No entanto, visto as dificuldades da população local para fonte de renda e sustento, o biólogo idealizou o projeto de manejo sustentável, em parceria com lideranças e associações locais, determinado a salvar não apenas o pirarucu, mas também prover sustento e cultura das comunidades da Amazônia que dependem dos rios da região.
“O pirarucu é um peixe enorme, podendo alcançar três metros de comprimento e pesar até 200 kg. Ele tem um papel fundamental na alimentação dos povos da Amazônia desde o surgimento da primeira sociedade humana na região”, explica Campos-Silva.
O grande pirarucu, ou o Arapaima gigas, é o segundo maior peixe de água doce do mundo (o primeiro é o esturjão-beluga). Campos-Silva demonstrou que o pirarucu pode ser salvo com uma ação no rio Juruá, no oeste da Amazônia, que foi o fechamento de pequenos lagos conectados aos rios associado ao manejo dos estoques de peixes pela população local, o que resultou em uma recuperação da espécie, multiplicando por 70 o número de pirarucus.
Essa recuperação melhorou a pesca, e cada lago agora gera em média US$ 9 mil de renda anual extra para as comunidades locais. Além disso, o resultado do projeto contribuiu para a criação de escolas, atendimento médico e empregos. A percepção da mudança na vida daquelas pessoas fez com que as comunidades participassem cada vez mais: “As comunidades locais tem contribuído para recuperar a população do maior peixe de escamas do planeta”, contou Campos-Silva, afirmando que “salvar o arapaima da extinção trouxe também um antídoto contra a pobreza”.

PREMIAÇÃO PELA ROLEX
O projeto do biólogo brasileiro foi um dos premiados pelos Prêmios Rolex de Empreendedorismo de 2019, da empresa suíça fabricante de relógios de pulso de luxo. Os Prêmios Rolex de Empreendedorismo foram criados em 1976 por André J.Heiniger, então diretor-geral da Rolex, para celebrar os 50 anos do Oyster, o primeiro relógio de pulso impermeável do mundo. A partir daí, transformou-se em um programa contínuo apoiando empreendimentos que contribuíssem no âmbito global para melhorar a vida das pessoas e proteger o planeta. Os Prêmios Rolex são administrados na sede da empresa em Genebra e todas as inscrições são analisadas por pesquisadores. As melhores candidaturas são avaliadas com a ajuda de especialistas em áreas relevantes. Mais de 34.000 pessoas se candidataram aos Prêmios Rolex desde o seu lançamento.
“Receber o Prêmio Rolex de Empreendedorismo foi fundamental para o desenvolvimento do projeto”, frisou Campos-Silva. Êle começou a estudar as dinâmicas ecológica, populacional e de deslocamento dos peixes gigantes em toda a região, implantando microchips e monitorando 30 indivíduos por ondas de rádio.
Também capacitou 40 pescadores e pescadoras para a fiscalização da pesca predatória e as técnicas de recenseamento, de modo que possam manejar as populações de peixes e os lagos. Além do pirarucu, com o fechamento dos lagos à caça e à pesca, o projeto trouxe de volta outras espécies ameaçadas na região, dentre as quais o peixe-boi, a ariranha, a tartaruga-da-amazônia e o jacaré-açu.
Segundo dados do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, o plano desenhado com base na ciência funciona com períodos de defesa do pirarucu – de 1º de dezembro a 31 de maio, época de cheia da várzea amazônica. De 1999 a 2018, na área abarcada pelo manejo na região do Médio Solimões, a população do pirarucu saltou de 2.507 a 190.523 espécimes.
O biólogo brasileiro planeja ampliar seu plano de preservação para 60 comunidades, onde vivem 1.200 pessoas espalhadas por 2 mil quilômetros às margens do rio Juruá. Seu objetivo é quadruplicar a população de pirarucus em três anos. Ele e sua equipe querem disseminar a mensagem por meio de oficinas de educação ambiental, recrutando professores locais entre 400 jovens, ajudar a empoderar mulheres para gerar renda como pescadoras e trabalhar com autoridades governamentais e organizações ambientais para compartilhar as lições do projeto.




