“Descobrimos uma nova árvore na Amazônia…”

Em entrevista exclusiva ao site Amazônia Sustentável, o cientista, Layon Oreste Demarchi, falou sobre o trabalho em conjunto com mais dois pesquisadores, os biólogos Lucas Cardoso Marinho e Maria Teresa Fernandez Piedade, responsáveis pela redescoberta de uma nova árvore nativa na Amazônia, a Tovomita cornuta. A notícia foi divulgada em fevereiro após o estudo ter sido publicado na revista “Acta Botanica Brasilica”, e ganhou repercussão na imprensa brasileira.

Ecólogo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutorando em Botânica pelo INPA, Layon vem investigando os diversos aspectos da ecologia e uso das áreas de campinara na Amazônia. Na entrevista, o cientista detalhou como surgiu o interesse pelo estudo da Tovomita cornuta: “A nova espécie foi primeiramente encontrada por mim durante uma atividade em campo na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã enquanto estudava a flora das campinaranas de lá. Com a coleta dos frutos me dei conta que não se tratava de nada que havia visto até agora. Com isso, mandei fotos para o especialista do grupo Tovomita, o pesquisador da UFMA, Lucas Cardoso Marinho, que me confirmou se tratar de uma espécie nova. Em seguida, com o apoio da pesquisadora do INPA, Maria Teresa Fernandez Piedade, demos início a descrição da nova espécie”, explicou.

Segundo Layon, a Tovomita cornuta, já havia sido coletada pela primeira vez em 1973 pelo botânico Richard Evans Schultes durante uma expedição na Amazônia. Após a coleta, o pesquisador depositou a planta no Herbário do INPA e lhe atribuiu o nome de uma espécie que ele acreditava se tratar na época. Somente em 2018, com as coletas de flores e frutos que Layon e os pesquisadores realizaram, que foi possível concluir a descoberta: “Essa espécie ainda não é cultivada em viveiros, ela estava na forma de exsicata(coleta seca e prensada depositada em herbário) há mais de 50 anos no herbário do INPA, até que em 2018 iniciamos o estudo.

A descoberta de uma nova espécie é um processo longo. Essa fase consiste em procurar nos diferentes herbários do Brasil e do mundo coletas que auxiliem a diferenciar essa espécie de outras relacionadas. Após essa fase, um trabalho científico descrevendo-a deve ser escrito e submetido a uma revista que o enviará para análise de vários especialistas, para que estes confirmem a descoberta” explicou.

Segundo Layon, a planta foi encontrada em Manaus e nos municípios vizinhos de Presidente Figueiredo e São Sebastião do Uatumã. As principais características que diferenciam a Tovomita cornuta de outras espécies é a presença de pequenas protuberâncias semelhante a cornos que a espécie produz em seus frutos por isso seu nome, Tovomita cornuta. Outras características que a diferenciam é que ela é uma espécie adaptada a ocorrer exclusivamente nos ecossistemas de campinarana amazônica, com porte de arvoreta, normalmente medindo de 3 a 8 m de altura.

AS DIFICULDADES DOS PESQUISADORES

Sobre os procedimentos para descoberta de novas espécies, o cientista contou que a Amazônia possui uma enorme extensão, e que ainda existem grandes áreas nas quais a biodiversidade foi pobremente amostrada. Para o cientista, a falta de recursos impede a realização de pesquisas, desde a dificuldade de acesso e locomoção, à falta de investimentos para novos profissionais: “Nossas instituições de pesquisa estão sendo paulatinamente sucateadas, com a queda de investimentos públicos pronunciada, principalmente desde 2019. Mais especificamente na região Norte, Instituições referências em Botânica como o INPA e o Museu Paraense Emílio Goeldi sofrem com a queda acentuada de investimentos, juntamente com o esvaziamento do quadro de funcionários. A escassez de concursos públicos agrava esta situação, pondo em risco os programas de pós-graduação e não dando chance para que jovens pesquisadores se fixem na região”, afirma Layon.

Ele apontou ainda que essas dificuldades podem não só impedir a descoberta de novas espécies, mas também  deixar de protegê-las: “O esquecimento de 50 anos que aconteceu com esta planta,Tovomita Cornuta,  assim como ocorre com outras,mostra que temos uma imensa biodiversidade vegetal e pouquíssimos especialistas que se dedicam a estudar nossa flora. Associado a isso temos os desafios amazônicos, como a dificuldade de acessar determinadas áreas. Assim, chegamos ao triste fato que grande parte de nossa biodiversidade já está ameaçada antes mesmo que cheguemos a conhecê-la”, declarou.

MENOS DE 50% DAS ÁRVORES SÃO CONHECIDAS

Questionado sobre a estimativa de novas espécies existentes na Amazônia, Layon Demarchi contou a estimativa mais recente, feita em 2020, em torno de 15.000 espécies considerando apenas as de hábito arbóreo para toda a região. “Entretanto, desse total, até o momento foram descritas aproximadamente 6.800 espécies considerando apenas árvores. As estimativas podem ser discutíveis e apresentar alguns problemas, mas é fato que ainda temos uma imensa biodiversidade desconhecida e enormes parcelas da Amazônia pouquíssimo estudadas”.

OS CIENTISTAS

Além de Layon Oreste Demarchi, que concedeu a entrevista ao site Amazônia Sustentável, fizeram parte do estudo da Tomovita cornuta o biólogo Lucas Cardoso Marinho, que é mestre e doutor em Botânica pela Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia;é professor da Universidade Federal do Maranhão e pesquisador credenciado ao Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas – Botânica Tropical UFRA/Museu Goeldi. E, também, participou a bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, que é doutora em ecologia, com pós-doutorado em Ecofisiologia e mudanças climáticas. Pesquisadora Titular do INPA, Manaus; docente dos Programas de Pós-Graduação de Ecologia e Botânica (INPA) e do Mestrado em Biodiversidade (UFOPA), além de ser membro titular eleito da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

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